Hipnose: Alívio da Dor

Alívio da Dor por Hipnose: De quem é essa ideia?

Antonio Carreiro, Dr. Sc.

Por se tratar de tema importante o alivio ou supressão da sensação dolorosa por hipnose tem sido frequentemente discutido, não falta “pai” para essa ideia ou quem, por absoluto desconhecimento, aponte um nome contemporâneo como se fosse o criador da anestesia por hipnose que, de fato, funciona, mas é uma técnica simples e praticada através dos séculos, foi conhecida por toda a Grécia e também na Roma antiga, difundida no pensamento filosófico iniciado no século III a.C. por Epicuro de Samos.

Epicuro (350 a.C.), conhecido como o médico da alma, afirmava que se pode desviar a dor recorrendo a lembranças agradáveis ou ideias de prazer. Diz Epicuro “podemos superar a dor, se a dor existe deve ser curada, afastada através de mecanismos que o próprio ser humano possui”, ensina que quando a dor é física, deve ser eliminada rememorando uma situação prazerosa do passado ou com uma esperança no futuro e, quando a dor é moral devem ser revistos os valores que orientam a vida (Brun, 1987) [1]. Essa técnica epicurista para modulação da dor, sem grandes alterações, foi apropriada por vários autores, antigos e contemporâneos.

A manutenção da atenção sobre a dor pode ser alterada, assim como a atenção em outros estímulos que não a dor, podem colaborar para seu alívio. Pessoas que se concentram na dor referem um aumento da sua intensidade, enquanto pessoas que tentam se concentrar em outras tarefas relatam diminuição da sensação de dor. Tais informações demonstram a importância da “atenção” na percepção da dor e ajudam a entender porque a hipnose e até mesmo determinados estados de transe obtidos por meio religioso ou mesmo uma meditação podem reduzir as sensações dolorosas, uma vez que esses processos se baseiam, principalmente na concentração da atenção (Kiernan et all, 1995) [2].

Existem diferentes caminhos pelos quais se podem modular a dor, mas todas eles partem dos mesmos princípios, estão presentes nas diferentes correntes do hipnotismo e tem aplicações amplas. Tem início na aprendizagem da prática do relaxamento e da auto hipnose. No estado de hipnose o terapeuta ensina aquilo que o paciente pode fazer para melhorar seu quadro. Roger (1978) [3], seguindo o pensamento de Epicuro, exemplifica como podemos esquecer a dor se concentrando atenção no prazer. E cita como exemplo:

O que acontece quando uma criança cai, arranha o joelho e começa a chorar? Se for uma garotinha podemos distraí-la da dor chamando-lhe a atenção para o vestido lindo que está usando ou para as flores à sua volta. Milagrosamente, as lágrimas param de rolar e o choro diminui quando ela, distraindo sua atenção da dor, passa a concentrar-se no vestido ou nas flores (ROGER, 1978).

A manutenção da atenção sobre a dor pode ser alterada, assim como a atenção em outros estímulos que não a dor, podem colaborar para seu alívio. Pessoas que se concentram na dor referem um aumento da sua intensidade, enquanto pessoas que tentam se concentrar em outras tarefas relatam diminuição da sensação de dor. Tais informações demonstram a importância da “atenção” na percepção da dor e ajudam a entender porque a hipnose e até mesmo determinados estados de transe obtidos por qualquer meio, inclusive o religioso ou mesmo a meditação podem reduzir as sensações dolorosas, uma vez que esses processos se baseiam, principalmente na concentração da atenção (Kiernan et all, 1995).

É certo que existem diferentes explicações pelas quais se podem entender a modulação da dor, mas todas elas partem dos mesmos princípios, estão presentes nas diferentes correntes do hipnotismo. Tem início na aprendizagem da prática do relaxamento e de auto hipnose. Tem sido muito discutido a analgesia obtida com hipnose como efetiva para tipos de dor como lombalgias e outras dores de coluna, fibromialgia, causalgias, dor pélvica crônica, cervicobraquialgias, neuralgias como a do trigêmino e outras síndromes dolorosas.

Seja qual for o caso para suprimir ou amenizar a dor, o processo inicia com a indução usual ao estado de relaxamento e, na sequência, palavras como “dor” ou “lesão” devem ser evitadas e incentivadas palavras do tipo “conforto”, “bem-estar” e “relaxamento”. As sugestões podem também ser com base na dissociação de ideias, como sugerir que uma parte enferma e dolorosa vai para longe do corpo. Outra técnica é a sugestão da “Regressão” para uma idade anterior ao início da dor ou projetar para o futuro, quando a dor terá desaparecido, sempre trabalhando a sugestão pós-hipnótica para produzir amnésia para o desconforto.

Quando o tema é claro, referindo-se diretamente a pratica anestésica através da hipnose, a literatura embelece como marco inicial o ano de 1845 e a figura de James Esdaille (1808–1859), médico nascido em Perth, na Escócia, formou-se em medicina em 1830 e começou a clinicar na Índia na British East India Company onde fez, em 1845, suas primeiras experiências de anestesia com excelentes resultados. Seus pacientes em transe sofriam as mais severas intervenções cirúrgicas, inclusive amputações, sem reclamarem de sentir dor, mas eram apontados pela medicina ortodoxa como “um grupo de endurecidos e renitentes impostores que sofriam sem reclamar, só para provar uma mentira como verdade”.

O lugar de Esdaille na história se justifica por ter sido ele um pioneiro na luta pelo reconhecimento da prática hipnótica (na época ainda conhecida como mesmerista) como um instrumento valioso na cirurgia. Esdaille realizou em Calcutá mais de três mil intervenções cirúrgicas com pacientes hipnotizados, centenas de operações profundas e 19 amputações. Essa prática, continuada por seus seguidores, só diminuiu quando surgiu o emprego do éter e do clorofórmio como agentes anestésicos (Esdaille, 1902). [4]

Esdaille empregava expedientes mesmerista ligeiramente modificados; os passes eram acompanhados de leves pancadas pelo corpo do paciente, olhava de perto os olhos e concentrava as pancadas na área a ser operada. Em intervalos regulares, soprava-lhes levemente a cabeça, os olhos e a boca. Esse processo prolongava-se geralmente por uma hora ou mais, até que o paciente estivesse em condições de sofrer a intervenção cirúrgica. Publica sua experiência na Índia e em um dos seus livros relata inúmeros casos de cirurgias sob o efeito hipnótico, sem anestesia e sem dor (Esdaille, 1957). [5]

As publicações médicas recusavam-se a aceitar as comunicações do cirurgião escocês e o Caleutta Medieal College moveu-lhe insidiosa campanha de desmoralização; a anestesia não valia como prova de coisa alguma e os médicos faziam circular a notícia de pacientes que haviam sido comprados para simular a ausência de dor. Esdaille foi julgado pela Sociedade Britânica de Medicina e uma testemunha, depondo em seu favor, disse ter assistido à extirpação de um olho, enquanto o paciente magnetizado acompanhava com o outro olho o andamento da operação, sem pestanejar.

Weissmann (1958) [6] lembra que o fato de suprir a dor com o ritual hipnótico era de esmagadora evidência. Contudo, contra Esdaille todos os argumentos eram empregados, inclusive o bíblico: “Deus instituíra a dor como uma condição humana, portanto, era sacrílega a anestesia do magnetizador”. Idêntico argumento foi usado contra Benjamin Franklin, o para-raios era condenado como uma tentativa ímpia de anular a vontade de Deus. Weissmann cita ainda uma nota publicada na The Lancet, a mais velha revista médica inglesa e ainda em circulação, a publicou na época a seguinte admoestação contra o hipnotismo e as práticas de Esdaille:

O mesmerismo é uma farsa demasiadamente estúpida para que se lhe possa conceder atenção. Consideramos seus adeptos como charlatões e impostores. Deviam ser expulsos da classe profissional. Qualquer médico que envia um doente a um charlatão mesmerista devia perder sua clientela para o resto dos seus dias (WEISSMANN, 1958).

Sofrendo grande perseguição, Esdaille teve que abandonar o hospital e voltar à Escócia. Mudou-se posteriormente para a Inglaterra, onde não teve melhor sorte. Suas comunicações científicas nos órgãos especializados ingleses foram recusadas. Mas, em 1846, consegue publicar um protesto destacando o ceticismo e o descaso pelo relato de operações indolores com o uso do mesmerismo:

Meu artigo não foi publicado; remeti então um trabalho mais amplo contendo um panorama de todos os meus casos cirúrgicos. Foi este também rejeitado por sua “impraticabilidade”. Ouvi dizer que foi dada como razão para a não publicação do meu trabalho o fato de que, embora ninguém duvide dos fatos narrados, aplica-se apenas aos nativos da Índia. Mas, pelo que eu saiba, nenhum jornal médico admitiu até hoje a realidade das operações mesméricas indolores mesmo na Índia, nem inseriu um só dos numerosos casos já verificados em Londres, Paris, Cherburgo, etc. Tais fatos não são admitidos ou levados ao conhecimento de outrem por medo das consequências. Supondo, porém, que só aos nativos da Índia se aplique o mesmerismo, não seria interessante para cirurgiões, médicos, fisiologistas e até filósofos saber por que esses 120 milhões de orientais (mesmo que os suponha macacos) são tão suscetíveis às influências mesméricas, a ponto de permitirem intervenções cirúrgicas e outros benefícios, naturalmente por disposições hereditárias? Tem sido dito aos leitores desses jornais que seus colegas médicos que se dedicam ao estudo do mesmerismo são tolos ou charlatões. Porém, um homem como eu, que jamais teve clínica particular, não posso entender assim. Se formos idiotas, deveríamos ser encorajados a escrever o suficiente a fim de, mais rápida e efetivamente, sermos desmascarados e expostos. Estou convencido de que em um ponto concordamos; todos gostam de tirar as próprias conclusões e ninguém deve se submeter à venda nos olhos ou a ser conduzido pelo nariz das pessoas que pagamos para que nos mantenham bem informados dos novos eventos e do progresso alcançado pela nossa profissão em todo o mundo. Pretender que haja uma imprensa médica livre na Grã-Bretanha é uma pilhéria e uma desilusão. A prova disso é que os médicos que dispõem de imaculada reputação profissional e privada honestidade de suas realizações, não tem permissão de se fazerem ouvir no seu órgão de classe, como se estivessem contrariando os interesses e as convicções pessoais dos editores… (ESDAILLE apud WEISSMANN 1958).

Após insidioso processo, a Sociedade Britânica de Medicina acabou por interditar a Esdaille o exercício profissional, mas existem relatos que mesmo assim ele retorna a Índia e continuou aplicando o mesmerismo anestésico, tornando-se mais tarde diretor do hospital. Esdaille é apontado historicamente como pioneiro na sistematização da aplicação da hipnose para supressão do estimulo doloroso em procedimentos cirúrgicos.

Faz parte também da história da hipnose como procedimento anestésico a sua aplicação em odontologia, conhecida como Odontohipnose ou Hipnodontia, sistematicamente iniciada em 1837 nos tratamentos dentários para solução do problema da dor em extrações. Foi neste ano que o dentista francês Jean Tienne Oudt comunicou à Academia Francesa de Medicina, haver extraído molares sob efeito da hipnose (Barreto, 1943). [7]

Depois de J. Oudt quem mais se destacou na odontologia usando hipnose como procedimento anestésico foi o dentista Aaron A. Moss, conhecido por sua clássica obra Hypnosis in Dentistry, um livro publicado em janeiro de 1963. Moss foi pioneiro na hipnodontia na América do Norte e o terceiro presidente do Instituto Americano de Hipnose. Foi também responsável, em 1966, pela primeira filmagem do uso da Hipnose na Odontologia e aplicava uma técnica que resulta de um ligeiro relaxamento muscular, exercício de respiração e sugestão específica (Moss, 1955). [8]

É vasta a literatura que aponta a Hipnose, mesmo no tempo de Mesmer e até muito antes dele, como sendo associada a processos anestésicos. Registros históricos não deixam espaço para que alguém possa se apropriar dessas ideias, seria o mesmo que declarar paternidade de filho alheio. Mas, isso acontece, seja por desconhecimento ou para auferir vantagens de autoria indevida.

 

REFERÊNCIA:

 

[1]Brun, J. O epicurismo (Trad. João Amado). Lisboa, Editora 70, 1987.

[2]Kiernan, B. D., Dane, J.R., Phillips, L.H.& Price, D.D. Hypnotic analgesia reduces R-III nociceptive reflex: further evidence concerning the multifactorial nature of hypnotic analgesia. Pain, 60, 39-47. 1995.

[3] Roger, B. Autodomínio através da auto-hipnose. RJ, Editora Record, 1978.

[4]Esdaille, J. Mesmerism in Índia and its Pratical Applications. In: Surgery and Medicine. Chicago, Psychic Re-search, (1852) 1902.

[5]Esdaille, J. Hypnosis in medicine and surgery. N. York, Julian Press, (1846) 1957.

[6]Weissmann, K. O hipnotismo. História, Teoria e Prática da Hipnose. RJ, Editora Prado, 1958.

[7]Barreto, A. L. Sugestões noturnas. SP, Seleções Odontológicas, 1943.

[8]Moss, A. A. The confident dentist can eliminaté gagging. In: The Bristtish Journal of medical hypnotism. London, v. 6, n. 03, 1955.

 

NOTAS:

a)O Texto foi extraído do Livro CARREIRO, A. A. Hipnose e Psicoterapia: Etiologia e Práxis.  SP, Ed. Fiúza. 1997 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.

b)Antonio Carreiro é Doutor em Ciências, Mestre e Bacharel formado pela Universidade Federal da Bahia.