Hipnose: Escola de Paris

Antonio Almeida Carreiro. Dr. Sc.

Concomitantemente com a Escola Verbal representada por Liébeault e Bernheim, existia outra em Paris que se intitulava de escola do grand hipnotisme. Funcionava no La Salpêtrière e, era representada por Jean-Martin Charcot (1825-1893), nascido em Paris onde viveu a vida inteira. Foi membro da Academia de Medicina e da Academia de Ciências da França e interessou-se pelo hipnotismo depois de assistir a uma demonstração de Hipnose de Palco feita pelo belga Donato.

Charcot tornou-se respeitado no mundo por pesquisar a histeria e fazer uso da hipnose no seu tratamento, foi professor de Freud e muito contribuiu para a construção da teoria psicanalítica, foi o pioneiro da Neurologia. Na linguagem da hipnose moderna, Charcot fortaleceu os seguidores da “Escola Sensorial” inaugurada por James Braid e se torna grande rival da Escola da Sugestão inaugurada pelo Abade Faria e defendida por Liébeault.

La Salpêtrière, construído por volta de 1630, hoje é uma dependência do Hospital Geral de Paris. O nome Salpêtrière vem do fato de ter sido construído no local de uma antiga fábrica de pólvora, cujo componente principal era o salitre, em francês salpêtre. O prédio era dividido em três unidades: Bicêtre para os homens, La Pitié para jovens e Salpêtrière para mulheres. Este terceiro setor foi destinado aos cuidados de Charcot que, entre 1862 e 1893, ali desenvolveu sua carreira de médico, pesquisador e professor.

A partir de 1870, a administração do Salpêtrière decidira separar os doentes alienados das mulheres histéricas e das epiléticas, juntando essas duas patologias numa mesma enfermaria e, rapidamente, as histéricas assimilavam os sintomas epiléticos e aprendiam a simular. Em seus estudos experimentais sobre a histeria, Charcot valia-se da hipnose para diferenciação diagnóstica e induzia sintomas espetaculares nas histéricas, de modo a provar o caráter neurótico dessa doença.

Com o uso da hipnose produzida por estímulos sensoriais, nas famosas “lições das terças-feiras” dedicadas ao estudo da histeria e do hipnotismo, Charcot provocava paralisia histérica em suas pacientes. Essas demonstrações atraíam estudantes de todas as partes do mundo e transformaram o La Salpêtrière em uma referência mundial para o hipnotismo.[1]

Na histeria o distúrbio se traduz por perturbações intelectuais e por sintomas físicos dos mais variados como instabilidade emocional, mitomania, afonia, abulia, amnésia, aerofagia, anestesia, hiperestesia, dispepsia, tiques, soluços, crises de choro ou riso, perturbação motora, vômitos e convulsões. O histérico hipnotizado pode chegar ao ataque espetaculoso e Charcot exibia isso em suas aulas no Salpêtrière.

Por muito tempo a histeria foi um problema incompreendido; na Idade Média atribuía-se à possessão demoníaca e, no século XIX, à compulsão sexual reprimida. As crises histéricas foram minuciosamente descritas por Charcot e depois explicadas por Freud como sendo uma neurose expressional, uma manifestação, somática e espalhafatosa, de conflitos inconscientes que funciona como uma linguagem do corpo para comunicar um conflito psicológico.

O nome histeria é derivado da palavra grega hystera, que significa útero, conhecida desde a antiguidade oriental e clássica, também foi associada aos deuses e demônios. Entendido como um problema apenas pertinente às mulheres, a histeria era entendida como uma doença provocada pelos fluidos do útero e também que a carência sexual, principalmente das sacerdotisas, virgens e viúvas, eram a sua causa. Crises histéricas se manifestam com convulsões, paralisias, perda da visão ou da fala, mas sem relação orgânica ou patológica. Por exemplo, o indivíduo afirma que não pode mais andar, mas seus reflexos tendinosos permanecem em perfeito estado.

Lidando com histéricas e epiléticas, em determinado ponto de sua carreira Charcot acreditou ter descoberto uma nova doença, que chamou de “histero-epilepsia”, os sintomas incluíam convulsões, contorções, desmaios e falha transitória da consciência. Suas conclusões e vários exemplos da nova doença eram apresentados aos alunos. Mas um aluno cético chamado Joseph François Félix Babinsky (1857-1932), conluio que Charcot tinha inventado, e não descoberto, a histero-epilepsia.

Supunha Babinsky que o fato de alojar juntas as pacientes epiléticas e histéricas resultava na histero-epilepsia. As histéricas, já vulneráveis à sugestão e à persuasão, eram continuamente sujeitas a viver naquela ala, por isso imitavam os ataques que repetidamente testemunhavam nas epiléticas e acabavam por exibirem os mesmos sintomas por simulação inconsciente.

Durante muitos anos, inclusive após a morte de Charcot, Babinsky foi médico-pesquisador do Salpêtrière e, em 1901, cria o termo piti, derivado de pitiatismo, palavra de origem grega (peithein, “persuadir”), tem o sentido de mentira ou fingimento. Para Babinsky os sintomas histéricos seriam uma afecção nervosa devida à sugestão e curável mediante a persuasão. Assim, o histérico seria um simulador inconsciente de doenças e a crise histérica seria uma simulação.

Durante as aulas, Charcot valia-se da hipnose para induzir sintomas usando a sugestão hipnótica, mas nesta época o positivismo científico estava na sua melhor forma e a hipnose só pôde retornar à cena científica depois de despojada de toda aura mística. Nesse clima de ciência, Charcot recomenda aos seus alunos que do antigo fenômeno hipnótico só devia ser preservada a dimensão somática. Assim pretendia evitar a simulação, separando a hipnose da imaginação do paciente e do poder de sugestão do hipnotista, ao contrário da escola rival em Nancy, que conservava a sugestão como fator explicativo.

Embora usando as mesmas técnicas de seus antecessores e tendo sido equivocado em algumas das suas conclusões sobre a hipnose, Charcot afirmava que sua prática de hipnotizar era inseparável do método anátomo-clínico. Era baseada na excitação sensorial, portanto um fenômeno “objetivo”, racional e, do ponto de vista acadêmico, respeitável de se estudar. Evitando deliberadamente tudo que pudesse ser reconhecido como sugestão verbal, utilizava apenas meios sensoriais para hipnotizar, como a visão, a audição, o tato, o paladar e o olfato. Nesta perspectiva, defendia que a hipnose poderia ser produzida por meios puramente físicos sensoriais e afirmava, o tempo todo, que um indivíduo pode ser hipnotizado sem seu próprio conhecimento ou permissão.

Durante o processo de hipnotizar, Charcot obrigava seus auxiliares a fazer uso de toda sorte de manipulações sensoriais, usando vários recursos complementares para a indução, entre eles a fascinação de objetos brilhantes e luzes coloridas, além da produção mecânica de sons soporíficos, produzidos por instrumentos que eram colocados perto do ouvido do paciente, como estímulo sensorial auditivo. Aplicava, com as mãos, toques no corpo ou colocava metais magnéticos, além de cobre, zinco e ouro.

Antes de Charcot a utilização de sons como elementos hipnóticos também eram usados pelos Mesmeristas. Segundo Bué (1946)[2], os instrumentos mais favoráveis ao desenvolvimento da ação magnética eram, depois da voz humana, a flauta, a harpa e a cítara. Mesmer empregava frequentemente este último instrumento. Em práticas de curas, muitos magnetizadores acreditavam que sons produzidos em um instrumento magnetizado faziam mais efeito num doente, do que o não magnetizado.

Paul C. Jagot (1959),[3] descrevendo sobre o hipnotismo sensorial praticado na Salpêtrière, revela que o transe hipnótico também era induzido pelo paladar e pelo olfato. Para isso era comum o uso de rum, água de louro-cerejo e valeriana. Odores fortes exalados de substâncias como o amoníaco era usado para produzir o transe instantaneamente, enquanto que perfumes como o almíscar, alfazema e vários tipos de incensos eram usados para adormecer gradualmente a consciência e aprofundar o transe.

Como Braid, também Charcot acreditava na existência das zonas hipnógenas, as quais devidamente estimuladas provocavam e aprofundavam o transe. Os “Toques de Charcot” são até hoje reconhecidos como uma eficiente técnica de indução. Para ele, bastaria exercer uma leve pressão com a mão no alto da testa, na raiz do nariz, no cotovelo ou no dedo polegar, para produzir instantaneamente um efeito hipnotico. Dizia também que o estágio de sonambulismo poderia ser produzido pela fricção do alto do crânio e da nuca de um indivíduo em estágio letárgico ou cataléptico.

Charcot acreditava que o estágio cataléptico pudesse ser produzido por um forte e vibrante som (atabaque, gongo, diapasão). Também para aprofundar o transe abria os olhos de quem estivesse em estágio letárgico, forçando para que olhasse em direção contrária de uma luz intensa, produzida por uma lâmpada de Bourbouse, luz Drumond ou de Magnésio, tecnologias que faziam parte da iluminação da época (Jagot, 1959).

No Hospital Salpêtrière era comum o uso de uma vela acesa, fixando o olhar do paciente na luz da chama, para iniciar o processo de hipnotizar. Também o uso de um disco de zinco com dois centímetros de diâmetro, colocado a 45 centímetros do corpo, na altura da cintura, como um ponto de mira, sobre o qual devia o paciente fixar os olhos durante quinze a vinte minutos sem pestanejar. Logo que absorvido nessa contemplação sem oscilar as pálpebras, o hipnotista fechava-lhe os olhos por meio de brandas e suaves fricções e, com uma das mãos sobre a cabeça, aplicava fortemente o dedo polegar no centro da testa (Toque de Charcot). No couro cabeludo o toque tinha como propósito provocar o relaxamento com a fricção dos dedos do hipnotista na região dos músculos frontais e occipital do hipnotizado.

Os instrumentos hipnóticos de Charcot substituíam a indução por sugestão verbal, defendida pela escola de Nancy. Aguas vezes os procedimentos eram acompanhados de ligeiras variantes, como a pressão dos globos oculares ou dos polegares, fricções do alto da cabeça e nuca, além de violentas batidas em instrumentos de percussão, repetidas de forma monótona, que acreditava-se atacar e fazer vibrar o sentido da audição.

Charcot também recorria a imitação de práticas antigas, empregava um fole para sopra o nariz e a testa do paciente, além de fragmentos de espelhos encaixados em dois pedaços prismáticos de madeira com vinte centímetros, aproximadamente, dispostos em cruz, com um eixo no centro. A esse recurso instrumental se imprimia um movimento de rotação, como um cata-vento, para provocar no paciente perturbação e fadiga ótica, fazendo-o cair no estado de transe.

Teorizando sobre a hipnose, Charcot que só lidava com histéricas e epiléticas, estabeleceu a premissa segundo a qual somente os histéricos podiam ser hipnotizados, afirmava que o estado de hipnose não passava de um estado de histeria e dividido o transe em três níveis: a letargia, a catalepsia e o sonambulismo. Para ele, o primeiro estágio, a letargia, podia ser produzido fechando simplesmente os olhos do hipnotizado e caracterizava-se pela mudez e pela surdez. O segundo, a catalepsia, era marcado por um misto de rigidez e flexibilidade dos membros, estes permanecendo na posição em que o hipnotista os largasse. O terceiro, o sonambulismo, se produzia friccionando energicamente a parte superior da cabeça e a nuca do hipnotizado.

Para conhecer melhor a personalidade e as ideias de Charcot é importante conhecer também Victor-Jean-Marie Burq (1822-1884) que, baseado em Paracelso, publicou um vasto trabalho sobre a metaloterapia, a aplicação de metais por via interna e externa com fins curativos. Ele pensava que o temperamento de cada pessoa correspondia a um metal específico e que era possível determinar a “sensibilidade metálica individual” utilizando a metaloscopia. Se aplicado um metal sobre a pele de um paciente, sendo ele sensível a este metal, experimentava sensações de calor, sudorese ou formigamento.

A metaloterapia foi usada nas unidades do hospital geral de Paris (Bicêtre, La Pitié e La Salpêtrière) em 1849, durante a epidemia de cólera. Afirmava também Burq que o contato do ferro é geralmente insuportável a todos os sonâmbulos; dizia que este contato os inquieta, irrita e queima. O ouro possui uma virtude calmante, dissipa as dores locais e resolve as contrações e, para certos sensitivos torna-se um excitante que provoca contrações e espasmos.

Em 1871, Burq publicou sua obra Metaloterapia: tratamiento de las enfermedades nerviosas, Parálisis, histeria, hipocondria, migraña, dispepsia, gastralgia, asma, reumatismos, neuralgias, espasmos, convulsiones, etc. Em 1876, Claude Bernard, que foi presidente da Sociedade de Biologia de Paris, designou três importantes médicos, Charcot, Luys e Dumont Pallier para avaliar essa teoria. Os três concluíram a favor e passaram a utilizar este método de cura, além de investigar intensamente a metaloscopia e suas relações com a eletricidade, com os eletroímãs e ferros imantados, passaram a aplicar como tratamento da histeria e meio de provocar a hipnose, a catalepsia, a letargia e a analgesia. Estas inocentes e crédulas experiências de Burq, dentro do ambiente médico e cultural da época, foram consideradas como muito importantes e encantavam Charcot.

Muitos são aqueles que contestam Charcot. Após a sua morte, seu discípulo Babinsky, o ridicularizou publicamente várias vezes. Dizia que o efeito dos metais era apenas sugestivo e que seu mestre muitas vezes percorreu o estreito caminho que separa a curiosidade científica do descrédito e do ridículo e, amargamente, denunciava os equívocos e as dificuldades de Charcot em lidar com a hipnose, dizia que os transes eram provocados por seus auxiliares e não por ele.

Pierre Janet, contemporâneo e sucessor de Charcot no Salpêtrière, escreveu no seu livro Lês médications psychologiques sérias críticas contra teorias e práticas do seu antecessor e, mesmo não tendo nenhum entusiasmo pela escola de Nancy, se declara a favor desta. Sofre também severa contestação ao livro Oeuvres completes, metalltherapie et hipnotism (1948).[4] Nesta publicação Charcot demonstra total convicção em relação a teoria metálica desenvolvida por Burq, segundo a qual a cura de certas doenças dependia tão somente do uso correto dos metais que eram aplicados nos pacientes enfermos. Tentou também convencer os discípulos de que aplicando um ímã em determinado membro, este paralisava. Com isso procurou reabilitar a superada teoria da cura pela ação magnética, criada por Paracelso e Mesmer.

Os seguidores da Escola da Sugestão (Liébeault) argumentavam que Charcot, embora entusiasmado com o hipnotismo, nada criou de novidade prática. Para hipnotizar associava técnicas do brandismo e do mesmerismo à teoria metálica de Burq. Diziam que este fato representaria o retrocesso às teorias fluidas e magnéticas defendidas por Mesmer e significava ignorância em relação à hipnose. Usavam a expressão “retroceder a Charcot” como termo pejorativo contra o hipnotismo defendido no Salpêtrière.

No entanto, foi Charcot quem fortaleceu a teoria do toque físico (o tato usado por Braid) e sistematizou o uso de essências como recursos para a o aprofundamento do transe. Porém, teve mais adversários do que seguidores, principalmente por concluir que a hipnose era uma forma de histeria. Não concordando, Bernheim dizia que as características dos sintomas da histeria podiam ser provocadas artificialmente por mera sugestão, não se vinculando com a hipnose. Nasceu daí a histórica controvérsia entre as duas escolas; a do Hospital Salpêtrière e a da Cidade de Nancy. Os dirigentes desta última classificaram o hipnotismo daquela de hipnotismo cultivado, cujo valor em relação ao hipnotismo de verdade se comparava ao da pérola cultivada em confronto com a pérola natural.

O conflito de interesse entre os seguidores Nancy e do Salpêtrière foi nutrido por invejas, ciúmes e toda a sorte de intrigas e ataques. Por estes motivos, severas e numerosas críticas sem base real ou fundamentos concretos foram publicadas apontando deficiências nos métodos e explicações de Charcot e, até hoje, por falta de melhores estudos tem quem as repitam. Charcot era acusado de incorporar ao processo de indução as teorias superadas e também de ser incompetente por não hipnotizar pessoalmente seus pacientes, deixando essa tarefa a cargo de auxiliares. Mas é grande o acervo documental dedicado á memória de Charcot, guardado e conservado até hoje em uma das dependências do Salpêtrière, provando o contrário.

A rivalidade crescente fez Charcot afirmar que os membros da escola de Nancy só hipnotizavam pacientes histéricos, os quais se deixavam iludir pela argumentação e pela dependência que devotavam aos médicos. Liébeault rebatia como sendo essa hipótese absurda, provando que há vinte anos hipnotizava os tipos mais variados de pessoas, sem encontrar entre elas nenhum histérico e dizia que as análises sobre o hipnotismo feitas no Salpêtrière foram prejudicadas, porque Charcot lidava exclusivamente com internas de sua enfermaria, disso resultou a equivocada hipótese de que a hipnose era uma característica do histerismo. Em 1889, em um congresso de psicologia, Forel também se colocando contra a teoria do Salpêtrière, apresenta suas observações, publicadas em 1907, descrevendo o que considera sobre as opiniões de Charcot:

Sou obrigado a protestar contra os que querem levar o hipnotismo para a histeria. É absolutamente inexato. Sem falar dos Drs. Liébeault e Bernheim, em Nancy, eu quero lembrar que Wetterstrand hipnotizou quatro mil pessoas, em Estocolmo, no espaço de três anos e os refratários eram raras exceções. É com o cérebro que se opera para realizar fenômenos hipnóticos e os cérebros são tanto mais fáceis de impressionar, quanto mais sadio forem. O cérebro dos histéricos, agitados e volúveis, cheios de caprichos, repele às vezes as sugestões, ao passo que o mesmo não acontece, em geral, com os indivíduos não neuróticos em sua maioria (FOREL, 2009). [5]

Em 1889 Charcot organizou o que denominou de Primeiro Congresso Internacional de Hipnotismo Experimental e Terapêutico. Neste evento foram palestrantes importantes personalidades que estudaram no Salpêtrière, entre eles o psicólogo americano William James, o médico e criminalista italiano Cesare Lombroso e o jovem Sigmund Freud. Desse Congresso resultou a publicação de uma revista especializada em artigos sobre hipnose, rapidamente espalhando novas conceituações pela Europa e Estados Unidos. A cada publicação gerada no Salpêtrière, em Nancy surgia outra contrariando e, a controvérsia, foi a forma mais rápida para a hipnose conquistar novas adesões de estudiosos, todos tentando compreender, tomar partido, explicar e difundir novas ideias sobre a hipnose, dando-lhe impulso acadêmico e terapêutico.

Embora Charcot tenha sido bastante contestado em relação ao hipnotismo, grandes descobertas na área médica foram devidas à sua dedicação à pesquisa. Seus estudos permitiram o surgimento da teoria que fundamenta o estudo da neurologia moderna, além de estabelecer características e princípios que permitiram a classificação de várias patologias. Mas é verdade que entre erros e acertos, no Salpêtrière a eletricidade foi exaltada como panaceia, Charcot submetia trezentos pacientes por dia a suaves voltagens elétricas, pressagiando as rigorosas terapias de choques na primeira metade do século XX em pacientes psiquiátricos.

Em 1882 Charcot criou no Salpêtrière o que viria a ser a maior clínica neurológica da época. Anexo à clínica, fundou o Museu anatomo-patológico e os laboratórios fotográfico, anatômico e fisiológico. Nestes espaços são guardados até hoje um grande acervo de instrumentos, fotografias, desenhos, textos e prontuários médicos que servem como fonte de pesquisa para o desenvolvimento da teoria da hipnose e sua aplicação terapêutica.

Centrando seus estudos sobre a histeria, a epilepsia e outras desordens neurológicas, publicou em cinco volumes Leçons sur les maladies du système nerveux (Lições sobre as doenças do sistema nervoso). Descobriu enfermidades e síndromes neurológicas; a esclerose lateral amiotrófica (diferenciou da atrofia muscular progressiva de Aran-Duchenne), a neuropatia de Charcot-Marie-Tooth e a esclerose múltipla, fazendo a primeira descrição histológica das lesões e estabelecendo características importantes, como a perda de mielina e a proliferação de fibras e núcleos gliais.

Na atrofia muscular Charcot descreveu os sintomas da ataxia locomotora, uma degeneração da medula espinhal e dos feixes nervosos. Foi o primeiro a descrever a desintegração dos ligamentos e das superfícies das juntas (Síndrome de Charcot) ou Junta de Charcot; artropatias dos joelhos, pélvis e outras articulações). Conduziu pesquisa para localização dos centros cerebrais responsáveis por funções nervosas e descobriu os aneurismas miliaria (dilatação das pequenas artérias que alimentam o cérebro), demonstrando sua importância na hemorragia cerebral.

Charcot e seus alunos tiveram um grande papel no desenvolvimento da Neurologia Brasileira, contribuindo significativamente, de maneira indireta, para o seu desenvolvimento que se iniciou no Rio de Janeiro, em 1911, com A. Austregésilo, discípulo do Salpêtrière. Também importantes personagens da Europa e de suas colônias foram consultadas por Charcot, entre seus pacientes estava D. Pedro II, o Imperador do Brasil, além de seu médico particular, Charcot foi seu amigo íntimo. Em 1889, depois de deposto, D. Pedro II foi para Paris onde viveu até a sua morte em 1891, sendo Charcot o médico que assinou a certidão de óbito com o diagnóstico de pneumonia (Carvalho, 1984). [6]

Referencias:

[2]Bué, A. Magnetismo Curador: Manual Técnico. RJ, Tradutor, Editor e Livreiro H.Garnier, 1945.

[6]Carvalho, A. C. V. Exílio e morte de Dom Pedro II. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Anais do Congresso de História do Segundo Reinado, RJ, p. , p. 385-438, 1984.

[4]Charcot, J. M. Oeuvres completes, metalltherapie et hipnotism. Tome IX, Paris, Lecrosnier et Babe, (1890) 1948.

[3]Forel, A. Hypnotism; Or, Suggestion and Psychotherapy. N. York, Bibliolife, LLC, (1907) 2009.

Notas:

[1]La Salpêtrière, em 1656 foi orfanato público além de albergue para mendigos. Em 1661 já abrigava 1460 pessoas; recebia filhas de nobres pobres, as quais gozavam de tratamento especial e ensinamento religioso, alfabetização e artes. Entre 1663 e 1673, as mais pobres foram treinadas em prendas domésticas e enviadas para as colônias para constituírem famílias com colonos franceses. Em 1680 passou a funcionar como Hospital Geral e, em pouco tempo degenerou em repugnante depósito de loucos, mendigos, epilépticos, paralíticos e aleijados, além de também funcionar como prisão para prostitutas e malfeitores. As loucas, no meio de gemidos e gritaria e infestação de ratos, ficavam acorrentadas até morrer. Aconteceu ali um dos mais hediondos episódios da Revolução Francesa, Le massacre de La Salpêtrière, na madrugada do dia 3 para 4 de setembro de 1792, vândalos invadiu o prédio e, após libertar as prostitutas, arrastaram para fora doente mentais e portadoras de deformações físicas, sob o argumento de que davam prejuízos ao Estado, todas foram massacradas. No início do século XIX o psiquiatra Philippe Pinel determinou a remoção das correntes e a humanização dos doentes. Na segunda metade do século XIX, com mais de 4 mil internos, tornou-se o mundialmente famoso centro de estudos e Hospital Escola da Universidade de Paris. Recebia estudantes de todo o mundo para assistir experimentos e aulas sobre doenças mentais, especialmente Charcot com demonstrações de hipnotismo que influenciou Freud na construção da teoria psicanalítica (N. do A.).

  1. a) O Texto deste Artigo foi extraído do Livro CARREIRO, A. A.  Hipnose: Mítica, Filosófica e Científica. Editora JM, 2014 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.
  2. b) Antonio Carreiro é Doutor em Ciências, Mestre e Bacharel formado pela Universidade Federal da Bahia.


Author: Carreiro
Professor Antonio Carreiro é mestre e doutor em ciências formado pela Universidade Federal da Bahia, estudou Psicanálise e Terapêutica da Hipnose. Em suas constantes viagens pelo mundo especializou-se na hipnoterapia, revelando uma nova maneira de ver a Hipnose, reconhecer, entender e controlar forças inconscientes para operar em melhorias na qualidade da vida humana. Com mais de 50 anos atuando na área do hipnotismo e na docência acadêmica Antonio Carreiro é personagem consagrada, seus livros, mais de 100 mil exemplares vendidos, são apresentados em vários idiomas. Titulação e experiência no Magistério Internacional comprovada.

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