Hipnose na Odontologia

Antonio A. Carreiro, Dr. Sc.

Faz parte também da história da hipnose a sua aplicação na odontologia, conhecida como Odontohipnose ou Hipnodontia. Em 1837, o dentista francês Jean Tienne Oudt comunicou à Academia Francesa de Medicina, haver extraído molares sob o sono magnético, usava-se ainda a terminologia mesmerista para designar esses procedimentos. Oudt inicia a prática da hipnose nos tratamentos dentários para solução do problema da dor em extrações. Mas, com o decorrer do tempo, passou a ser usada também para melhorar as reações psicofísicas, próprias do ambiente odontológico em pacientes que tinham horror a agulhas, broca e até ao barulho produzido pelo maquinário odontológico (Barreto, 1943).

Depois de Oudt quem mais se destacou nesta área foi o dentista Aaron A. Moss, conhecido por sua clássica obra Hypnosis in Dentistry, um livro publicado em janeiro de 1963. Moss foi pioneiro na hipnodontia na América do Norte e o terceiro presidente do Instituto Americano de Hipnose. Foi também responsável, em 1966, pela primeira filmagem do uso da Hipnose na Odontologia e desenvolveu um método que resulta de um ligeiro relaxamento muscular, exercício de respiração e sugestão específica (Moss, 1955).

A indiscutível eficácia da hipnose na odontologia fez com que G. F. Kuehner, também dentista, adaptasse o método de Moss para aplicações em odontopediatria. A novidade era usar na indução a linguagem própria do paciente infantil; segurando a mão da criança, picava levemente com uma agulha, perguntando-lhe pela sensação que experimentava. A resposta poderia ser, dói, ou coisa parecida. Em seguida comprimia a mesma área com o dedo indicador e perguntava “e agora, o que está sentindo? ” A resposta provável seria não dói ou está apertando ou coisa semelhante. Ato contínuo ele fechava os próprios olhos diante do paciente, fingindo sono, relaxar ou dormir. Assumida essa postura, perguntava de novo, “e agora, que tal? ” O pequeno paciente responde nesta situação “sono, noite, cama, etc.” Guardando mentalmente as palavras proferidas para serem usadas na indução, o êxito da sugestão era mais fácil e mais rápido (Kuehner, 1956).

Em odontologia pode ser utilizada a sugestão pós-hipnótica; os pacientes submetidos ao transe de nível médio podem ser anestesiados pós-hipnoticamente, o que é feito quando o hipnotista (não necessariamente dentista), apalpando com a mão a região a ser anestesiada, sugere as condições específicas para a anestesia produzir efeito. Passando a mão no campo operatório é dito ao paciente: “quando você estiver na cadeira do dentista, esta região ficará completamente insensível, completamente anestesiada, ao levantar da cadeira do dentista tornará a sentir esta região, porém sem qualquer sensação desagradável. Passará muito bem”. Devidamente hipnotizado, o paciente pode ser submetido à intervenção odontológica, independente de nova indução e na ausência do hipnotista (Gonçalves, 1957).

A hipnose na odontologia não depende sempre de um nível de transe profundo, cada estágio ou grau de hipnose oferece suas possibilidades terapêuticas próprias. Dentro desta variância são organizados esquemas de procedimentos e, genericamente, apresentam quatro pontos (Burgess, 1950):

  1. Preliminar. Sugestões contra náuseas e sensações afins, relaxamento muscular e sugestões contra temores, apreensões, ansiedade, fobias e objeções ao tratamento.
  2. Transe leve. Habituar o paciente à prótese e ao aparelho de ortodontia. Preparação de cavidade e obturações leves.
  3. Transe médio. Preparação de cavidade e obturações profundas. O controle da náusea, da salivação, dos espasmos e do sangramento excessivo.
  4. Transe sonambúlico. Extrações de dentes mesmo inclusos, polpa dentária, gengivectomias, intervenções no maxilar. Influenciar o pós-operatório para controlar hemorragia e a regeneração do tecido, facilitando o processo da cicatrização.

Diante da evidente eficácia, o uso da hipnose em odontologia se espalhou pelo mundo sem contestadores. Foi implantado como estudo acadêmico em 1948, com a criação de uma cadeira de hipnodontia na Faculdade de Odontologia de Concórdia, em Moorbead nos Estados Unidos e, em 1952 já havia registro de mais de 30 mil pacientes atendidos por esse processo.

Distinguiram-se no campo da Hipnodontia muitos americanos, entre eles: Garland Fross, de South Bend, Indiana; Tom Wall, de Seattle, Washington; Jack Bart, de Riverside e Beverly Hills, Califórnia; Martin Cousins, de Los Angeles, Califórnia. Garland Fross foi Comandante no Departamento de Odontologia da Marinha Americana e muito ensinou, aos Dentistas da Marinha e a milhares de dentistas civis, o uso da Hipnose na Odontologia.

No Brasil a Hipnodontia é objeto de estudo e sua aplicação é recomendada para cirurgiões-dentistas. Desde 1955, por iniciativa da ABO – Associação Brasileira de Odontologia, seu estudo foi implantado como curso de extensão universitária em várias Faculdades, mas a Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia foi a única que manteve como disciplina regular no currículo do curso de graduação, as aulas eram ministradas pelo professor Giuseppe Mazzoni que, falecido em 1993, não foi substituído na docência.

Na atualidade a maioria dos dentistas perde o interesse pela hipnodontia pelo fato da anestesia química ser eficaz e de efeito imediato. Na verdade, para o seu uso, a primeira sessão demanda um pouco de tempo, contudo nas sessões seguintes isso não ocorre; o paciente pré-induzido por sugestão pós-hipnótica administrada na sessão anterior entra em transe imediatamente ao sentar-se na cadeira odontológica.

Referencias:

  1. A. L. Sugestões noturnas. SP, Seleções Odontológicas, 1943.
  2. A. A. The confident dentist can eliminaté gagging. In: The Bristtish Journal of medical hypnotism. London, v. 6, n. 03, 1955.
  3. G. F. Hypnosis in dentistry. N. York, MacGraw-Hill Book Company, 1956.
  4. A. Hipnose em odontologia. RJ, Revista Brasileira de Odontologia, n. 80, 1957.
  5. Burgess, T. O. Hypnodontia – Hypnosis as Applied to Dentistry. North West Dentistry, p.29-107, 1950.

Notas:

a)O Texto deste Artigo foi extraído do Livro CARREIRO, A. A. Hipnose e Psicoterapia: Etiologia e Práxis.  SP, Ed. Fiúza. 1997 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.

b) Antonio Carreiro é Doutor em Ciências, Mestre e Bacharel formado pela Universidade Federal da Bahia.



Author: Carreiro
Professor Antonio Carreiro é mestre e doutor em ciências formado pela Universidade Federal da Bahia, estudou Psicanálise e Terapêutica da Hipnose. Em suas constantes viagens pelo mundo especializou-se na hipnoterapia, revelando uma nova maneira de ver a Hipnose, reconhecer, entender e controlar forças inconscientes para operar em melhorias na qualidade da vida humana. Com mais de 50 anos atuando na área do hipnotismo e na docência acadêmica Antonio Carreiro é personagem consagrada, seus livros, mais de 100 mil exemplares vendidos, são apresentados em vários idiomas. Titulação e experiência no Magistério Internacional comprovada.

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