Hipnose & Psicanálise

Hipnose & Psicanálise

Antonio Almeida Carreiro, Dr. Sc.

 

Depois de Lindner, Gindes e Charcot, houve um período de esquecimento da hipnose e da hipnoanálise por mais de 30 anos. Como responsável por esse eclipse, os historiadores apontam a popularidade da psicanálise e a pessoa de seu fundador, Sigmund Freud (1856-1939), médico judeu-austríaco, nascido em seis de maio de 1856, em Freiberg na região da Moravia, antiga porção da Áustria, hoje Pribor, na República Tcheca. Quando tinha quatro anos, Freud e sua família transferiram-se para Viena, na Áustria, onde passou a maior parte da sua vida; ingressou na Universidade de Viena em 1873, formando-se em medicina em 1881. Após ter escapado ao nazismo, mudou-se para Londres onde faleceu aos 83 anos de idade, no dia 23 de setembro de 1939.

Influenciado por Charcot, Freud se interessou pelo estudo da histeria e, aplicando a hipnose como método de investigação da mente, analisou vários pacientes que tinham esse quadro. Esses elementos tornaram-se base para a sua teoria. Durante a fase inicial da sua pesquisa foi vítima de hostilidade; a maior parte dos ataques lançados contra ele vinha dos próprios colegas, os médicos de Viena, que eram contra a afirmação da influência do inconsciente nas ações humanas e a ligação dos impulsos sexuais com as neuroses (Klein, 1958).[2]

Opositores, indignados com a teoria da psicanálise, tudo fizeram para desmoralizar Freud, mas sua genialidade e coragem permitiram continuar com suas ideias, muito além do consenso médico de sua época. Em 1910, no Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, apresentou oficialmente em Viena suas conclusões sobre a mente humana. Até hoje a psicanálise encontra forte resistência na classe médica e a atividade do psicanalista é proibida para médicos. Esse é o Parecer do CFM nº 02/1998 “A atividade exclusiva de psicanálise não caracteriza exercício da medicina. A titulação médico psicanalista não tem amparo legal, portanto não é permitida a sua utilização” (LEX, 1998). [3]

Em 1903, antes de apresentar oficialmente sua teoria, Freud fundou a Sociedade Psicanalítica de Viena e numerosos discípulos principiaram a se reunir em torno dele. Em 1909, foi convidado por Stanley Hall para proferir conferências na Clark University em Worcester, Massachussets nos Estados Unidos, onde trabalhou não só nos aspectos médicos da psicanálise, mas procurou também aplicar suas teorias em muitas áreas da atividade humana. Mesmo tendo sido essa sua única visita a América, essa oportunidade definitivamente marcou sua carreira, ao atrair a atenção mundial para seus trabalhos. Freud recebeu, em 1930, o prêmio “Goethe” e, assim foi como Darwin e Copérnico, reconhecido por ter realizado uma revolução no conhecimento; a ideia de que o Ser Humano é movido pelo inconsciente.

Freud (1974)[4] diz que a psicanálise que não é uma área de particularidade médica e, seu o objetivo não é desvendar os mecanismos fisiológicos do cérebro, mas explicar o funcionamento da mente enquanto essência humana, Expõe suas opiniões para serem contestadas, objetadas e discutidas por médicos e outros profissionais interessados no assunto, nas conferências, Freud não dogmatizava verdades acabadas e insistia para que seus ouvintes as descobrissem.

A Psicanálise é uma técnica de investigação de processos mentais, ou método clínico de tratamento da mente, que tem por base conceitos da escola freudiana ortodoxa. A função primordial da clínica psicanalítica, a análise, é buscar a origem do sintoma ou do comportamento manifesto. Enquanto método de investigação, a psicanálise caracteriza-se pelo método interpretativo, buscando o significado oculto daquilo que é manifesto através de ações e palavras ou das produções imaginárias, como os sonhos, os delírios e as associações livres.

Para Freud (1974) o material reprimido no inconsciente fica escondido e só aflora por meio dos sonhos ou de sintomas em forma de charadas e atos falhos. Se esse afloramento for bem interpretado, pode revelar pistas dos males que afligem o paciente. Dizia ainda: “Os sintomas não resultam diretamente das recordações, mas de fantasias que são construídas sobre elas”. Lacan acompanhou Freud ao dizer que o sintoma era a própria repressão numa linguagem cifrada.

Próximo do fim de sua pesquisa, Freud reconhece a utilidade da hipnose, porém afirma rejeitar o hipnotismo e a hipnoanálise como método terapêutico, relacionando entre outros motivos o pequeno número de pessoas que ele conseguia colocar num estado profundo de transe. Dizia ainda que durante o tratamento os sintomas desapareciam, mas reapareciam mais tarde se a relação paciente-terapeuta fosse perturbada. Mas, parece que utilizando técnicas eficientes, 98% das pessoas são hipnotizáveis e perturbar a relação é uma questão que pode ser evitada.

O motivo que Freud não relacionou para ter desistido da hipnose foi a histórica rejeição por parte da classe médica e do meio acadêmico sobre a eficácia dessa técnica. Esse fato seria mais um motivo a dificultar a psicanálise quando essa vinha associada à hipnose e, por isso, Freud teve que declarar que abandonara seu uso na investigação do inconsciente, criando em seu lugar novos recursos como a interpretação dos sonhos e livre associação das ideias. Neste sentido afirma Weissmann (1958) que “talvez Freud tivesse dificuldades para hipnotizar; é possível que lhe faltasse a qualidade de um bom hipnotista e, isso também teria contribuído para ele abandonar o método da hipnose”. De fato, Freud afirma claramente “Quando constatei que, apesar de todos os meus esforços, só conseguia colocar em estado de hipnose uma pequena parcela de meus doentes, decidi abandonar esse método” (Freud apud Chertok, 1990).

A ciência criou uma gigantesca indústria de medicamentos, capaz de aliviar muitas dores e curar doenças; no entanto, não consegue tratar bem as implicações do desejo e do prazer, fonte de vários sintomas que atormentam a qualidade de vida do Ser Humano. Muitos sintomas considerados patológicos podem advir de traumas psíquicos reprimidos no inconsciente, provocados por acontecimentos graves que o paciente não consegue assimilar e dar uma resposta adequada, tratando de esquecer e escondendo no seu inconsciente aquilo que incomoda, mas que aflora por meio de sintomas. O tratamento para esta questão não é medicamentoso, a cura está no caminho das psicoterapias.

Uma pessoa pode sentir tremores incontroláveis nos membros, porém pode ser que não existam causas realmente físicas para tais tremores. Nesse caso, para a psicanálise, o que pode estar ocorrendo é a tentativa de afloramento do inconsciente, através de um simbolismo, que faz com que esse sintoma exista. A psicanálise, assim como hipnotismo, seria uma ferramenta para a cura do sintoma.

Doenças que não se explicam pela etiologia ou sintomas não têm causas orgânicas que as justifiquem, na psiquiatria são conhecidas como síndrome da mitomania, mentira ou fabulação de pretensa doença. Na linguagem popular o termo foi simplificado como piti, significa fingimento ou simulação de doença, mas para a psicanálise pode ser um sintoma de causa inconsciente que atormenta, às vezes até somatiza, por isso deve ser tratado.

Somatizar significa transferir para o corpo o que é insuportável para a mente. Corpo e mente funciona como vasos comunicantes: quando um está cheio, sobra para o outro. A doença física pode ter causa psíquica e vice-versa. Somatizar não é fingir uma doença, é desenvolver um problema orgânico ou comportamental devido a causas psíquicas que não foram enfrentadas conscientemente. Esse meio de expressão foi denominado por Freud como a linguagem orgânica da alma. Como exemplo:

  1. Em lugar de declarar abertamente sua repugnância por determinada pessoa, o indivíduo se queixa de náuseas e sente vontade de vomitar.
  2. Em vez de admitir sua infelicidade conjugal, o indivíduo padece de inexplicáveis distúrbios cardiovasculares, flutuações da pressão arterial, sudorese, tremores, etc.
  3. Para deslocar seu sentimento de culpa proveniente de um “passo em falso na vida afetiva”, uma jovem torna-se manca, como se houvesse apenas torcido o pé.
  4. Não podendo superar o conflito da vida diária, o qual não compreende bem nem conhece conscientemente a solução, alguém se queixa de falsos problemas de saúde.

No início de sua pesquisa, Freud escreve um artigo no qual, de forma inequívoca, revela as dificuldades para o médico dominar e aplicar a técnica do hipnotismo, que considerava de indiscutível importância terapêutica:

Seria um equívoco pensar que é muito fácil praticar a hipnose com fins terapêuticos. Pelo contrário, a técnica de hipnotizar é um método tão difícil como qualquer outro. Um médico que deseja hipnotizar deve tê-lo aprendido com um mestre nessa arte e, mesmo depois disso, deverá ter tido bastante experiência própria, a fim de obter êxitos em mais de alguns poucos casos. Depois, como hipnotizador experiente, haverá de abordar o assunto com toda a seriedade e firmeza que nascem da consciência de estar empreendendo algo útil e, a rigor, em algumas circunstâncias, necessário. A rememoração de tantas outras curas realizadas pela hipnose conferirá à sua conduta, para com seus pacientes, uma certeza que não deixará de despertar, também nestes, a expectativa de mais um êxito terapêutico (FREUD, 1986). [5]

Em seu artigo sobre a hipnose Freud recomenda que se tenha cautela sobre o ceticismo, diz que quando isso ocorre em qualquer das partes envolvidas no processo de hipnotizar, o fracasso é garantido:

Todo aquele que se põe a hipnotizar com ceticismo, e que talvez se afigure cômico a si mesmo nessa situação e que revele, por sua expressão, sua voz e seus modos, não esperar nada da experiência, não terá motivos para se surpreender com seus fracassos; deveria, preferencialmente, deixar esse método de tratamento para outros médicos capazes de praticá-lo sem se sentirem feridos em sua dignidade médica, de vez que se convenceram, pela experiência e pela leitura, da realidade e da importância da influência hipnótica (FREUD, 1986).

Freud diz ainda que se tentássemos impor a hipnose a alguém que acreditasse ser uma prática perigosa, o processo seria impossibilitado diante da ansiedade e do sentimento angustiante do paciente de estar sendo dominado. Portanto sempre que surgir uma intensa resistência contra o uso da hipnose, é melhor que se renuncie ao método e espere até que o paciente, sob a influência de outras informações, aceite a ideia de ser hipnotizado:

Devemos ter como regra não procurar impor ao paciente o tratamento pela hipnose. Entre o público acha-se difundido o preconceito (reforçado por alguns médicos conceituados, conquanto inexperientes nesse assunto) de que a hipnose é um procedimento perigoso (FREUD, 1986).

Freud afirma a eficácia da hipnose como recurso terapêutico quando diz:

Tudo que se tem dito e escrito a respeito dos grandes perigos da hipnose pertence ao reino da recaída. O emprego da hipnose nunca exclui o emprego de qualquer outro tratamento, dietético, mecânico ou de algum outro tipo. Em numerosos casos, ou seja, naqueles em que os sintomas são de origem psíquica a hipnose preenche todos os requisitos que se pode exigir de um tratamento causal, nessas circunstâncias, fazer perguntas e infundir calma ao paciente em hipnose profunda geralmente proporciona o mais brilhante êxito (FREUD, 1986).

Freud compara a hipnose e coloca em igualdade com outros métodos de cura, esclarecendo que não se deve temer o tratamento ou duvidar de sua eficiência:

Tudo que se tem dito e escrito a respeito dos grandes perigos da hipnose pertence ao reino da fantasia… Não há dúvidas de que a área coberta pelo tratamento hipnótico é mais extensa do que a de outros métodos de tratamento de doenças nervosas. E não há nenhuma justificativa para a acusação de que a hipnose só é capaz de influenciar sintomas, e apenas por breve período de tempo. Se o tratamento hipnótico é dirigido somente contra os sintomas, e não contra os processos patológicos, está seguindo justamente o mesmo caminho que todos os demais métodos de tratamento são obrigados a trilhar. Quando a hipnose tem êxito, a estabilidade da cura depende dos mesmos fatores que a estabilidade de todas as curas conseguidas por outros métodos. Caso a hipnose se tenha defrontado com fenômenos residuais de um processo já concluído, a cura será permanente; se as causas que produzem os sintomas ainda estiverem em atividade e com sua força não diminuída, é provável que haja uma recaída. O emprego da hipnose nunca exclui o emprego de qualquer outro tratamento, dietético, mecânico ou de algum outro tipo. Em numerosos casos, ou seja, naqueles em que os sintomas são de origem psíquica, a hipnose preenche todos os requisitos que se pode exigir de um tratamento causal, nessas circunstâncias, fazer perguntas e infundir calma ao paciente em hipnose profunda geralmente proporciona o mais brilhante êxito (FREUD, 1986).

Freud sempre reconheceu o valor e importância terapêutica da hipnose; isso se extrai da vasta literatura sobre a teoria e a técnica da psicanálise ortodoxa e seu grande envolvimento com o hipnotismo, “a importância do hipnotismo, na história do desenvolvimento da psicanálise, não deve ser subestimada. Tanto sob o aspecto teórico quanto terapêutico, a psicanálise é a administradora dos bens deixados pelo hipnotismo” (FREUD, 1986). O ponto de partida para Freud desenvolver suas ideias foram as experiências de Josef Breuer (1842-1925), nascido em Viena em 1867 e forma-se em medicina e, em 1884. Ambos iniciam, através de práticas hipnóticas, uma pesquisa sobre histeria.

Breuer relatou a Freud como empregara a hipnose em uma paciente, Anna O., que apresentava sintomas clássicos da histeria; perturbações da fala, dificuldades em manter a cabeça erguida, tosse nervosa intensa. Além de um quadro de depressão, nervosismo e hipocondria, em certas ocasiões se acreditava paralítica, em outras acreditava estar impossibilitada de deglutir e por algum tempo não conseguia comer ou ingerir líquidos, mesmo estando com fome e sede. Em outras ocasiões tinha distúrbios visuais, contraturas musculares, perda de sensibilidade na pele, de modo que sua personalidade ora era a de uma deficiente, ora a de uma pessoa normal.

Aos sintomas apresentados por Anna O. acrescenta-se ainda o fato de que ela se sentia incapaz de falar seu idioma, o alemão, e recorria ao francês ou inglês para se comunicar. Esses sintomas haviam aparecido pela primeira vez quando ela se dedicava ao seu pai muito enfermo. Inicialmente foi tratada, com aplicações das técnicas de hipnoanálise, por Breuer e depois por Freud, Anna O. entra para os anais da psicanálise.

Anna O. é o nome fictício citado em Estudos sobre a Histeria para identificar a paciente Bertha Pappenheim, nascida em Viena na Áustria, em 1859, e falecida em Iselberg na Alemanha, em 1936. Sua formação ficou restrita aos 16 anos de idade, quando estudou em um colégio feminino católico. Essa era a melhor educação escolar que poderia ter se apropriado, uma vez que a Universidade de Viena não admitia mulheres. Mas por esforço próprio, tornou-se fluente em francês e inglês, dominava também italiano por ter morado muitos anos com o pai em Nápoles, além de sua língua materna, o alemão falado na Áustria.

Foi por Breuer ter se associado à Freud que o caso de Anna O. apareceu na literatura, se isso não ocorresse teria permanecido como um episódio isolado. Entretanto, Freud reconheceu aí o berço da psicanálise cujo princípio fundamental estabelecia a relação entre os sintomas e o chamado trauma psíquico, representado pelos resultados de cenas vivenciadas, porém esquecidas. A terapêutica fundada nesse princípio consistia em fazer com que o paciente se recordasse de tais cenas e as reproduzisse no decorrer do transe hipnótico, liberando assim a carga emocional reprimida pelo trauma.

O tratamento de Anna O. teve a duração de cerca de um ano e meio, curando-se com uma combinação da recuperação de lembranças ocultas e da conversa entre ela e seu terapeuta, enquanto se encontrava em transe hipnótico. Breuer e depois Freud induzia a moça falar; ela narrava uma série de fatos passados e profundamente dolorosos que não faziam parte do conhecimento consciente da paciente. Quando despertava do transe, ela podia reconstituir esta etapa do seu próprio passado e os sintomas desapareciam.

Hipnotizada Anna O. historiava o começo de sua própria doença, desde os primeiros sintomas, entrando em pormenores sobre o seu desenvolvimento e, quando a paciente saía do transe, melhoravam as suas condições de saúde. Com a hipnose, havia a reconstituição das cenas vivenciadas ao lado do pai e, com a elucidação dos fatos responsáveis pelas suas dificuldades e sofrimentos atuais, a paciente sentia-se aliviada e os sintomas iam desaparecendo. Aí surgira, pela primeira vez, a cura pela conversa (talking cure) e Breuer chamou esse processo de catártico.

Com Breuer, Freud aprendeu a hipnoanálise e catarse passou a ser o nome que se dá ao processo no qual a pessoa, em estado hipnótico, fala tudo que lhe vem à mente, o que lhe traz grande alívio emocional. Esse método foi o princípio da doutrina de Freud que, entusiasticamente, o adotou. Mas, sentindo as limitações de Viena, Freud foi, em 1885, até Paris assistir aos cursos proferidos por Jean-Martin Charcot. Neste mesmo ano ganhou uma bolsa de estudos para um período de um ano, quando se especializou no Hospital Salpêtrière, e logo após realizou o curso de mestrado em neuropatologia. Tornando-se aluno e amigo de Charcot, estudou dedicadamente os processos da histeria e hipnotismo enquanto ouvia do mestre a afirmação de que os problemas dos pacientes (particularmente das mulheres) eram provocados por questões do foro sexual.

Nas aulas as demonstrações de Charcot, fazendo surgir e desaparecer sintomas como a paralisia dos membros, parecia convencer a todos que assistissem. Mas, ansioso por aprender mais, Freud foi a Nancy em 1889, a capital do hipnotismo naquela época. Ali ingressou na clínica dirigida por Liébeault e Bernheim, passando algumas semanas a observar e, assim, descreveu o que assistira:

Eu mesmo presenciei Bernheim demonstrar que as lembranças provocadas pelo sonambulismo eram, apenas, manifestamente, esquecidas no estado de vigília, e que elas poderiam ser reproduzidas por insistência verbal do médico, acompanhada de pressão das mãos, o que provoca outro estado de consciência. Por exemplo, ele provocou em uma paciente mulher, em estado de sonambulismo, uma alucinação negativa de que ele não estava mais presente. A seguir, tentou de todas as formas se fazer notado, mas sem sucesso. Após ter despertado, ele perguntou se a paciente se lembrava do que havia feito durante todo o tempo em que ela pensava que ele não estava presente. Ela replicou que não sabia de nada, mas, Bernheim insistiu que ela se recordaria de tudo, pressionando com uma mão a fronte da paciente. E ela finalmente começou a relatar todos os acontecimentos que haviam ocorrido durante o estado sonambúlico e que, ostensivamente, ela de nada lembrava no estado de vigília (FREUD, 1998).

Continua Freud descrevendo o que assistira na clínica de Bernheim e como resolvera aplicar em seus pacientes a hipnose, no modelo da hipnoanálise clássica, muito em uso na época:

Essa impressionante e instrutiva experiência passou a ser meu modelo. Eu decidi supor que meus pacientes sabiam de tudo que pudesse ter um significado patogênico, e que só era necessário forçá-los à lembrança. Sempre que eu atingia um ponto em que minhas perguntas não eram satisfeitas, perguntava – Desde quando você tem esses sintomas? – E se a resposta fosse – Realmente, eu não sei – Eu colocava uma das mãos na fronte do paciente, ou pressionava sua cabeça com ambas as mãos e dizia – Através da pressão de minhas mãos você vai se recordar, no momento em que eu retirar essa pressão você verá algo defronte de si, ou alguma coisa surgirá em sua mente que você deve notar; é isso que você está procurando. Muito bem, o que você viu, ou o que veio em sua mente? (FREUD, 1998).

Referindo-se aos benefícios do tratamento dos pacientes através da hipnose, Freud distingue como sendo melhor do que os métodos anteriores à base de choques elétricos, massagens e banhos de água fria e, neste caso, até atribuiu os poucos êxitos no tratamento de doentes nervosos por efeito da pura sugestão de melhoria. O tratamento pela hipnose, que aprendera através das demonstrações de Liébeault e Bernheim, parecia então oferecer ser uma técnica substituta para as até então praticadas.

Segundo Sartre (1986),[6] o procedimento terapêutico da época, com base na eletricidade, consistia de uma cadeira onde o paciente era sentado com braços e pernas amarrados e apoiado num degrau isolante; aproximando-se uma escova de metal eletrizada com alta tensão e baixa corrente elétrica, que começava a crepitar no rosto do paciente, ao longo da nuca e sobre o cabelo. Os banhos de água fria consistiam em amarrar o paciente numa cadeira onde permanecia por dois ou três dias sem dormir. Vencido pelo sono, o paciente adormecia e sobre ele era despejada grande quantidade de água. Dos banhos frios, aplicados à noite e na fria Europa, geralmente decorria um quadro de pneumonia que, quase sempre, resultava no óbito do paciente.

Segundo Weissmann (1958), o que mais impressionou Freud nas experiências de Bernheim foram os fenômenos pós hipnóticos. Os pacientes executavam pós hipnoticamente atos sugeridos durante o transe, certos de agirem por sua livre e espontânea iniciativa. Interrogados sobre o motivo de seu estranho procedimento, os pacientes demonstravam que não se lembravam das ordens recebidas em estado de transe. Havia, portanto, uma parte na personalidade humana desconhecida do próprio indivíduo a influir e a determinar a sua conduta. Era o inconsciente a governar o consciente.

Segundo Nuttin (1967),[7] foi a descoberta de Bernheim, relativa aos fenômenos da sugestão pós-hipnótica, que sugeriu a Freud a significação que o inconsciente adquiriu em psicanálise. Bernheim praticava hipnose em seus pacientes e, em estado de transe, dava uma ordem ou uma incumbência, por exemplo, para realizar certo ato em determinada hora. O paciente, então, retornava do transe hipnótico e, na hora fixada, executava o ato mandado, sem ter a menor consciência da ordem recebida.

Foi Bernheim quem, durante as sessões de hipnose, mostrou para Freud que os elementos, presentes de maneira latente ou inconsciente no psiquismo, não permanecem necessariamente em estado de impotência e de inatividade. Um elemento pode permanecer inconsciente e, entretanto, intervir ativamente no comportamento. Freud relaciona e analisa esses fatos, associa ao que observou em Paris e em Nancy, conjuntamente com o que ouvira de Breuer, e inicia a elaboração de sua complexa doutrina. A psicanálise.

A partir de 1895 Freud já pensava em mecanismos mentais que iriam, mais tarde, ser englobados no seu conceito de inconsciente. A hipnose era ainda o instrumento de penetração nessa obscura e desconhecida área da mente onde estavam encarcerados e ativos os afetos represados, tentando forçar o caminho para o consciente. Para Freud, esses “elementos recolhidos, enquanto não conseguissem arrombar a porta de seu cárcere, incomodavam pelo barulho (sintomas) perturbando a paz da consciência”. Um ou outro desses elementos conseguia burlar a sentinela, valendo-se dos mais engenhosos expedientes de disfarces. Muitos deles vinham à tona transformados, disfarçados simbolicamente ou somatizados.

As distorções reveladas nos casos de disfarce simbólicos ou somatizações funcionam como um mecanismo de defesa. O indivíduo em transe, de forma clara ou simbólica, esclarece o conteúdo represado no inconsciente, conteúdo este atiçado e interpretado durante o transe pelo hipnotista. Disso pode sobrevir o alívio e a supressão da necessidade de se externar indiretamente e disfarçados por meio de sintomas simbólicos negativos. Na fase que antecede o método psicanalítico, as informações ocultas eram acessadas pela hipnose.

Para a psicanálise, o acesso ao conteúdo reprimido no inconsciente, ocorre através da observação de alguns lapsos, erros, sonhos e mudanças instantâneas no comportamento que permitem esclarecer as causas dos sintomas. Com base nisso, Breuer e Freud juntos publicaram um trabalho Studien ueber hysterie. Devido a insistência da importância do fator sexual como causa das doenças nervosas, o trabalho começou a levantar celeumas e severas críticas. O estudo da histeria fez Breuer, temendo prejudicar sua clínica e ressentido com as investidas maliciosas dos colegas, abandonar a pesquisa. Freud assume a responsabilidade do estudo iniciado por ambos e abranda os descontentamentos declarando se afastar da hipnose e, com isso, buscava facilitar a aceitação da psicanálise que por si só já assustava e, quando associada com a hipnose era ainda mais desacreditada e repelida.

Chertok (1990) aponta várias contradições nas justificativas de Freud quando diz ter abandonado a hipnose. Porém, muitas dessas contradições, influenciando Freud a ser aceito como uma autoridade sem questionar suas teorias, se transformaram em mitos e passaram a assombrar a hipnose. Na proporção que a teoria psicanalítica crescia mais ofuscava o hipnotismo e lhe tomava todo espaço (Neubern, 2001).[8]

Em uma de suas críticas Freud acusa a hipnose ser usada para direcionar as ações do paciente, limitando a sua autonomia. Ele esqueceu, porém, que estavam se referindo ao uso instrumental da técnica na medicina, ou seja, ao modo como a hipnose foi incorporada ao modelo médico autoritário e impessoal (Lerède, 1984).[9] Nas clássicas terapias pela hipnose a autonomia estava explícita, isso acontecia até nos procedimentos dos magnetizadores, que realizavam apenas passes e aguardava as reações surgirem espontaneamente nos pacientes. Em termos atuais, isso pode ser entendido como colocar paciente em transe e dar oportunidade para que o inconsciente promova a sua própria cura.

Em outra crítica de Freud, dessa vez abordando o estado hipnótico, diz que o sujeito hipnotizado estaria destituído de um mecanismo crítico, impedindo, assim, a análise das resistências no processo psicanalítico. Chertok (1990) contesta pelo fato de que era de conhecimento dos hipnólogos que, o hipnotizado não realiza atos que vão contra seus princípios morais, portanto, não estão acríticos.

Segundo Chertok (1990), a contradição também aprece quando Freud diz que abandona a hipnose e volta a afirmar que faz uso da “pequena sugestão”, ou seja, declara que a ação da sugestão era um fato nas sessões de psicanálise. Para Chertok, a “pequena sugestão” é uma forma indireta ou disfarçada do uso da hipnose. Para este autor, Freud preferiu ignorar este fato, mantendo as aparências da descoberta de algum outro método, a psicanálise, que tornava o inconsciente um fenômeno objetivo e bem delimitado, como exigido pelo projeto da ciência moderna e, assim, evitando maiores críticas daqueles que a ele se opunham (Neubern, 2001).

O certo é que as justificativas de Freud para não usar a hipnose, por algumas décadas se transformaram em obstáculos para o reconhecimento da hipnose em termos clínicos. Assim, a hipnoterapia volta a ser entendida como um “tema maldito”, isso se justifica porque a hipnose representou uma ameaça para a psicanálise e para várias escolas modernas de psicologia que, para se constituírem, tiveram que incluir em seu projeto pedagógico as noções dominantes do projeto científico behaviorista. Diante dessa condição, a hipnose passa a ser também injustamente ameaçada pelo psicologismo científico por ser concorrente da psicologia clínica científica.

Discordando das justificativas de Freud, Neubern (2001) relaciona os mitos mais frequentes que prejudicam o desenvolvimento do hipnotismo:

[…] o estigma da maldição também passou a incidir sobre a hipnose em termos de abordagem e técnica, situando-a como técnica ineficaz e superficial que jamais atingiria a causa dos problemas, permitindo a substituição de sintomas, como um procedimento caracterizado pela submissão ao terapeuta, como um processo vicioso e que poderia induzir a condutas perigosas (NEUBERN, 2001).

Para Freud (1980)[10] o conceito de transe representava a fase mais acentuada da hipnose. No entanto, no final de 1892, analisa o caso de uma paciente de nome Lucie R. que, sendo induzida, não conseguiu atingir o estado de transe. Freud relata que a paciente se encontrava “calma, em um grau de relativa sugestibilidade, com os olhos cerrados, as feições tranquilas e os membros imóveis” e admite que Lucie R. teria alcançado, não o grau profundo, mas um grau suave de hipnose no qual poderia se processar a análise. Esse grau é reconhecido pelos hipnotistas modernos como sendo o estado hipnoidal. Freud passa então a distinguir sugestão direta (mecanismo da hipnose) e sugestão indireta (sugestão no estado de vigília), admitindo que no estado de relaxamento se pode obter os mesmos resultados que no transe profundo.

Para livrar-se das críticas de seus pares, Freud trabalhava com um nível mais suave do transe, negando que se utilizava do método hipnótico, porém faz uso da pressão das mãos sobre a testa do paciente para que se recorde de fatos vividos. Era exatamente a pressão das mãos, uma das técnicas sugerida por Charcot para induzir o transe e são inúmeros os casos em que Freud faz uso deste expediente em sessões psicanalíticas.

Freud (1980) relata o caso de uma jovem com neurose de ansiedade, Fräulein Elizabeth von R.,[11] paciente que tinha uma simpatia particular para com um cunhado, marido de sua irmã mais velha, que se mascarava por ternura familiar. Esta irmã adoeceu, logo depois veio a falecer e ela fora chamada urgentemente e quando a moça chegou ao leito da morta, ocorreu-lhe na mente, por rápido instante, a ideia de que o cunhado agora estava livre, podendo desposá-la. Com referência ao tratamento desse caso de neurose de ansiedade, Freud descreve seu novo método, sugestão indireta (no estado de vigília):

É-nos lícito admitir como certo que esta ideia, denunciando-lhe à consciência o intenso amor que sem saber tinha ao cunhado, foi logo entregue à repressão pelos próprios sentimentos revoltados. A jovem adoeceu com graves sintomas histéricos e quando comecei a tratá-la tinha esquecido não só aquela cena junto ao leito da irmã como também o concomitante sofrimento indigno e egoísta. Mas recordou-se de tudo durante o tratamento, reproduziu o incidente com sinais de intensa emoção, e curou-se (FREUD, 1980).

Descrevendo sobre seu procedimento com Elizabeth von R., Freud (1980) analisa seu efeito e, embora tenha aplicando mecanismos da hipnose, nega essa explicação, mesmo sabendo que a imposição das mãos era uma forma de sugestão hipnótica, para ele tratava-se de um procedimento de sugestão indireta:

Ao aplicar esse método pela primeira vez, fiquei surpreso por obter tudo que precisava. Posso mesmo dizer que ele jamais me falhou. Ele sempre me apontou o caminho a seguir, permitindo que a análise se processasse sem o sonambulismo. Esse método me ensinou bastante e em todas às vezes auxiliou na obtenção de meus objetivos… Para explicar sua eficácia, poderia mesmo pensar que se trata de certa e momentânea hipnose induzida, mas os mecanismos da hipnose são tão enigmáticos para mim que eu preferiria não recorrer a eles para uma explicação (FREUD, 1980).

As investigações com o uso da hipnose forneceram para Freud muitas pistas e, através destas, ele viria a descobrir o que chamou de inconsciente, e. passou a mencionar que a sugestão indireta permitia a associação livre das ideias, dizendo que isso seria uma forma substitutiva do método hipnótico em que todo o processo passava pela consciência, pela elaboração. A partir daí, diz substituir a técnica hipnótica pela livre associação das ideias, instituindo como regra fundamental que o paciente deitado em um sofá, num recinto meio escurecido, deveria exprimir livremente seus pensamentos, sem preocupação de omissão ou de seleção. Enquanto isso, o psicanalista se manteria assentado atrás, fora da vista do paciente.

A Livre Associação das Ideias é uma técnica que consiste em estimular o paciente a expressar todos os pensamentos que afloram em seu consciente, ainda que lhe pareçam desconexos ou banais, como meio de captar seus conflitos inconscientes. Essa técnica fundamenta a prática da psicanálise em substituição ao método da hipno-análise usada por Breuer e depois por Freud no início de carreira. Agora, sem hipnose, o paciente fica livre para falar o que lhe vier à mente, fazendo assim associações isentas de críticas e independentes de toda reflexão consciente. As associações seriam determinadas pelo inconsciente e o terapeuta deveria interpretá-las para trazer à tona o trauma responsável pela perturbação nervosa do paciente.

Como discípulo Bernheim, em Nancy Freud descobre o que chamou de transferência e aponta que nesta encontra-se, também, a sugestão. A transferência consiste na reprodução das emoções relativas a experiências reprimidas, com a substituição de alguém por outra pessoa, como alvo dos impulsos reprimidos. Constitui um dos mecanismos de defesa e, no tratamento psicanalítico, o terapeuta pode se tornar o objeto da transferência. Breuer enfrentou pela primeira vez o problema da transferência quando tratava de Anna O. A partir de certo momento a paciente tentara lhe seduzir e posteriormente, tentara também seduzir Freud, transferindo para estes o amor que tinha reprimido em relação ao pai. Assim acontece também com Mesmer, quando se envolveu com Maria Theresia von Paradis, com Charcot e várias pacientes, entre elas Dora e Augustine, também aconteceu com Jung e sua paciente Sabina Spielrein, jovem de 19 anos que recebeu tratamento no hospital psiquiátrico de Burghölzli em Zurique, em 1905, quando Jung aplica pela primeira vez as teorias de Freud. Sabina Spielrein, seduz Jung de forma implacável e com ele manteve um longo relacionamento amoroso.

Segundo a psicanálise, quanto mais sugestionável for o paciente mais tendente será a transferência. Mas, segundo Freud a transferência faz com que o paciente incapaz de lembrar suas reações emocionais infantis, as reproduza de forma estereotipada nas sessões. Por isso, a psicanálise se define até hoje como um método terapêutico que utiliza como instrumento principal o fenômeno da transferência. Referindo-se a este aspecto Weissmann (1958) afirma que a transferência pode ser negativa ou positiva:

Entre analista e paciente se repete correlativamente a vida afetiva intrafamiliar. O analista representando o papel de pai ou de mãe em relação ao paciente, mas um pai ou mãe aperfeiçoado e psicológico (o paciente se toma de simpatia e admiração pelo analista); negativa (ódio e desprezo pelo analista) ou ambivalente (o paciente liga ao mesmo tempo ódio e amor, admiração e desprezo ao substituto materno ou paterno). Portanto, psicanálise, no sentido ortodoxo da palavra, significa essencialmente análise da resistência e da transferência (WEISSMANN, 1958).

Em A dinâmica da transferência, Freud fala que pode ocorrer um bloqueio da associação livre causado pela ativação inconsciente da transferência negativa que dificulta em muito o trabalho da psicanálise. No tratamento, Freud refere-se a um momento em que o paciente não mais quer colaborar com o psicanalista:

Nuvens aparecem, surgem dificuldades no tratamento, o paciente declara que nada mais lhe acode à mente, dando a nítida impressão de não estar mais interessado no trabalho, de estar, despreocupadamente; não atribuindo mais importância às instruções que lhe foram dadas, no sentido de dizer tudo que lhe vem à cabeça e de não permitir que obstáculos críticos impeçam de fazê-lo como se estivesse fora do tratamento e não houvesse feito acordo algum com o médico. Está visivelmente ocupado com algo, mas pretende mantê-lo consigo próprio (FREUD, 1980).

Afirma Weissmann (1958) que com ajuda da hipnose a dificuldade para o paciente colaborar é menor, porque pode ser anulada a transferência negativa que resulta no paciente a rejeição ao tratamento psicanalítico. Freud, no entanto, na intenção de diminuir a rejeição de seus pares às suas ideias, demonstrava afastar-se da hipnose em sua prática terapêutica; dizia que para tornar efetiva a cura, julgava indispensável que o paciente se mantivesse o mais consciente possível e participasse ativamente de todos os incômodos do ato de ser analisado. Através da interpretação dos sonhos e da livre associação, Freud dizia encontrar mais informações sobre a mente humana do que através da hipnose.

Freud não tardou em descobrir, que a simbologia do sonho era complexa para uma interpretação precisa e que a livre associação não era livre até o ponto em que se esperava. Observou que em alguns casos, só com grande dificuldade os pacientes conseguiam associar livremente, porque as informações que interessavam mais à análise se viam impedidas de vir à tona. Eram informações que não podiam ser proferidas em voz alta e, muitas vezes, nem sequer lembradas em virtude de um pensamento de caráter comprometedor, demasiadamente ridículo, humilhante ou deprimente.

Freud (1980) define os sonhos como mensagens mascaradas do inconsciente, “são os caminhos que levam ao inconsciente”, chegando a denominar os sonhos como a “via real para o inconsciente”. Dizia que, enquanto dormimos, o corpo relaxa e as defesas da mente se debilitam. Afloram então do inconsciente as repressões que em estado de vigília somos incapazes de reconhecer. A partir dessa premissa, elaborou um método para analisar os sonhos e explicou como funciona a mente enquanto dormimos. Quando estamos acordados, nossa mente constrói uma série de barreiras ou repressões que nos impedem de conhecer nossos pensamentos traumáticos. Durante o sonho, essas barreiras se tornam mais fracas e do inconsciente pode aflorar com mais facilidade o conteúdo da repressão.

Freud vai buscar também na hipnose uma analogia que permita fortalecer sua ideia sobre os sonhos. Novamente remete-se a Nancy, em 1889, quando testemunhou o trabalho de hipnoanálise, realizado por Liébault e Bernheim, com demonstrações de indução aos sonhos com hipnose em pacientes pobres da classe trabalhadora. Bernheim pedia para o paciente relatar, depois de despertado, o que havia ocorrido durante o sono hipnótico. De início, sistematicamente, o paciente nada lembrava. Aos poucos, vagamente, ia recordando alguns elementos até que conseguia reconstituir por completo a experiência vivida sob hipnose. Transferindo essa situação para a sua prática clínica, Freud, admitindo que o sonhador tenha noção do que sonhou, trabalha a questão de como tornar acessível a ele o conhecimento que tem e como fazê-lo falar disso ao psicanalista. Estabelecendo como regra não exigir do paciente que diga abertamente o sentido do seu sonho, porém sinta que é capaz de encontrar a origem do círculo de pensamentos do qual surgiu tal sonho.

Freud afirma que, tal como nos atos falhos, é preciso entender o que o inconsciente nos quer dizer durante o sono e isso seria possível através de uma livre associação de ideias e imagens. Interpretar o sonho seria uma maneira de vencer as inibições que nos impedem de conhecermos inteiramente ou de forma clara seu conteúdo ou de nos livramos de alguns problemas não conhecidos conscientemente.

Afastando-se cada vez mais da referência ao uso dos métodos hipnóticos, Freud em 1899 publicou A interpretação dos sonhos (Die Traumdeutung), que marcou decisivamente o início da psicanálise baseada no conceito de consciente e inconsciente. Posteriormente imagina o aparelho psíquico formado por Id, Ego e Superego, reforçando a teoria do inconsciente como determinante dos comportamentos (Freud, 2004).[12]

Id, ego, superego fazem parte da segunda teoria estabelecida por Freud, entre 1920 e 1923, para referir-se aos três sistemas da personalidade. As primeiras traduções para o português foram feitas a partir de uma incorreta tradução inglesa do original alemão; da Es, das Ich, das Über-Ich. O correto é: o Isso, o Eu, o Supereu. O Isso, totalmente inconsciente, é a parte mais primitiva; lugar das paixões, dos desejos não identificados. O Eu, que tem parte consciente e inconsciente, desenvolve-se quando o Isso entra em contato com a realidade externa. É intermediário entre as exigências do Isso e do Supereu. O Supereu também tem parte consciente e inconsciente além de funções de juiz e sensor. O Eu também exerce censura, mas esta é apenas consciente.

Mais tarde, a teoria de Freud foi contestada por seu discípulo Carl Gustav Jung (1875-1961), psicólogo e psiquiatra suíço, com quem trabalhou de 1907 a 1913. Contrariando o mestre, Jung afirma que os sonhos não são representações dos desejos insatisfeitos ou de determinadas repressões, mas sim um grito de alerta de nossa mente para que prestemos atenção a áreas que estão sendo descuidadas. Afirmava ainda que, se tivermos uma vida equilibrada, esta função se realiza inconscientemente enquanto dormimos. Caso contrário, um dos primeiros sintomas é o mau humor, seguido de uma série de outros. Neste caso, seria necessário interpretar o que sonhamos. Esta análise se daria não simplesmente através de todos os sonhos e de livres associações, mas sim com base nos sonhos repetitivos, cujos elementos sejam claramente perceptíveis. Jung discordava ainda de que a sexualidade fosse a única fonte de todos os conflitos humanos (Jung, 1990).[13]

Jung postula a existência de dois inconscientes: o individual alimentado por acontecimentos vividos e esquecidos e o coletivo. Este último é constituído de símbolos universais, transmitidos de geração a geração e cristalizado nos arquétipos, e seriam a fonte da criatividade humana.  O inconsciente coletivo é comum a todos os seres humanos; manifesta-se nos sonhos por meios de símbolos arquetípicos (Jung, 1990).

O inconsciente coletivo é como o ar, que é o mesmo em todo lugar, é respirado por todo mundo e não pertence a ninguém, mas pertence a toda a humanidade. Os arquétipos são expressos em símbolos primitivos, mitos ou histórias folclóricas como tema e formas comuns que podem ser contados em todas as culturas, em qualquer época. Essas poderosas imagens e histórias não foram concebidas por experiência individual, mas são heranças comuns de toda a humanidade, seus conteúdos são condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral.

Através dos arquétipos, no inconsciente coletivo está escrita toda a história da humanidade e cada Ser Humano nasce com esta herança, que é essencialmente a mesma em qualquer lugar e não varia de pessoa para pessoa, como a herança biológica. São também chamados por Jung de imagens primordiais, porque correspondem frequentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes.

Outro brilhante seguidor de Freud foi Jacques Lacan (1901-1980), nasceu em Orleans na França, formou-se em medicina e trabalhou como neurologista e psiquiatra até o fim da vida. Para Lacan, os escorregões verbais podem funcionar como uma porta de acesso ao inconsciente bem mais eficaz do que os sonhos; por isso, durante a sessão, os lacanianos dão muita ênfase às palavras do paciente, mais do que ao conteúdo que elas expressam. Lacan recorda a afirmação de Freud de que tudo depende da linguagem e que o inconsciente está estruturado como uma linguagem nem sempre clara.

Lacan foi o seguidor de Freud que mais contribuiu e deu continuidade à sua obra. Na década de 50, rompeu com a IPA – International Psychoanalytical Association, mas não com Freud. Contudo, lançou uma inovação importante no método psicanalítico ao entender que as leis do inconsciente são análogas às leis que estruturam a linguagem. Partindo da leitura de Freud, Lacan buscou criar ou descobrir uma gramática para o inconsciente valendo-se das teorias de Platão, Hegel, Heidegger e, sobretudo, do estruturalismo de Saussure e de Lévi-Strauss. Para Lacan a verdade tem a estrutura de uma ficção, em que aquilo que aparece sob forma de sonho ou devaneio é por vezes a verdade oculta sobre a realidade social. Também acrescenta a cultura ancestral, herdada de forma sutil, como responsável por ações inconscientes.

Outros desdobramentos da psicanálise são atribuídos a Alfred Adler, que destacou a importância do sentimento de inferioridade na motivação que nasceu das três relações básicas que mantêm o indivíduo como o trabalho, os amigos e seu objeto amado. Otto Rank introduziu uma nova teoria da neurose atribuindo todas as perturbações neuróticas ao trauma inicial do nascimento. Os últimos desdobramentos foram de Erich Fromm, Karen Horney e Harry Stack Sullivan, além de Melanie Klein cuja obra teve uma grande influência no desenvolvimento da psiquiatria e da psicologia das fantasias inconscientes. A partir da psicanálise, a hipnose e a hipno-análise que já encontravam opositores por serem consideradas técnicas não acadêmicas, passou por um período de maior descrédito. Mas embora Freud tenha substituído a hipnoanálise pela psicanálise, posteriormente tornou-se responsável por sua ressurreição.

Freud não abandona hipnose

O hipnotismo em bases modernas é largamente ligado à psicanálise; o conceito do inconsciente na proposição freudiana tenta explicar tanto a psicanálise quanto o fenômeno hipnótico. Observa-se também, que atualmente a psicanálise tem se reaproximado da hipnose e que as técnicas modernas da hipnose são consequências diretas das orientações dos conceitos de consciente e inconsciente, além de ser possível considerar a técnica da livre associação como mais uma técnica hipnótica. Visto assim, Freud nunca abandonou o hipnotismo, além de se valer da hipnose para criar a psicanálise, dissimulou seu uso em sua nova prática e contribuiu para sua evolução.

A vertente interpretativa das explicações da psicanálise, iniciada por Breuer e Freud, nasceram da observação de pacientes hipnotizados quando eles praticavam hipnoanálise. Na atualidade a hipnose se justifica e se fundamenta também nos conceitos da psicanálise; o núcleo da teoria freudiana converge com os objetivos do estado hipnótico; ambos podem ser vistos como sendo meios que facilitam a interpretação e superação dos sintomas com origem em traumas psíquicos. A ligação da hipnose com a psicanálise é evidente, mas Zilboorg vai além nesse argumento relacionando magnetismo e hipnotismo com a linguagem da psicanálise, afirma que “Ninguém duvida de que a influência e os efeitos do magnetizador ou do hipnotizador se fundam essencialmente, senão exclusivamente, nas profundas reações inconscientes do hipnotizado” (ZILBOORG, 1941). [14]

Sandor Ferenczi, discípulo de Freud, defende a aplicação da hipnose na psicanálise. Em 1931 em sua conferência em Viena, proferida em homenagem ao aniversário dos 75 anos de Freud, a despeito das severas críticas, cita o que entendia como sendo a presença da hipnose no processo psicanalítico e afirma que a livre associação é um processo que induz o paciente ao estado de hipnose. De fato, apesar de Freud menosprezar a hipnose formal, a técnica psicanalítica usa constantemente procedimentos de indução hipnótica; como tocar na testa do paciente, o relaxamento do corpo sobre um divã, pouca iluminação no ambiente da análise e o farto uso da imaginação e a expectativa do paciente.

  1. Ferenczi (1992), por diversas vezes, interpreta que a sugestão indireta não deixa de ser hipnose ou que a sugestão direta, que Freud admitia ser básica na aplicação do seu método psicanalítico, era uma forma de produzir nos pacientes pensamentos, tendências e emoções sem a censura consciente. Portanto, efeitos hipnóticos. Explicando o que entendia como procedimento hipnótico na livre associação, Ferenczi relata em suas conclusões:

Nos casos aparentemente imersos em dificuldades, em que a análise não traz, depois de muito tempo, nem novas perspectivas nem progressos terapêuticos, tenho a sensação de que isso a que chamamos associação livre ainda continua a ser uma seleção consciente de pensamentos. Assim, impele os pacientes a um ‘relaxamento’ mais profundo, a um abandono mais total às impressões, tendências e emoções internas que surgissem de maneiras inteiramente espontâneas (FERENCZI, 1992). [15]

Ferenczi (1992) viu o que ninguém tinha visto antes quando diz que a hipnose apresenta vários níveis de aprofundamento, começando pelo relaxamento mental até o transe propriamente dito, e que um desses níveis de hipnose deve estar presente no tratamento psicanalítico para garantir sua eficácia. Com essas colocações Ferenczi havia chocado seus colegas psicanalistas e, longe de se esquivar, reafirmou nitidamente, “Em que medida o que faço com meus pacientes é sugestão ou é hipnose?” Diferenciando sugestão de hipnose na maneira freudiana, relembra as instruções do psicanalista quando recomenda “Agora, deite-se, deixe seus pensamentos fluírem livremente e diga tudo que lhe vier à cabeça”. Ferenczi relata o que entendeu como sendo hipnose presente na psicanálise em suas relações com os pacientes. E, assumiu ter sempre usado a hipnose no processo psicanalítico:

No curso de qualquer associação livre são inevitáveis alguns elementos de êxtase e de auto esquecimento; entretanto, o convite para ir mais adiante e mais fundo conduz, por vezes, e comigo muito frequentemente, confessemos com franqueza que ocorre o aparecimento de um êxtase mais profundo; quando o paciente assume um ar, digamos, alucinatório, podemos denominá-lo, se quisermos, de auto hipnose; meus pacientes o chamam de estado de transe (FERENCZI, 1992).

Para Ferenczi, Freud não teria abandonado a hipnose em favor de outra técnica mais eficaz, mas teria elaborado uma forma para dissimular sua aplicação criando uma técnica mais suave de indução (o divã) com pacientes suscetíveis. Com isso fugia das críticas contra o hipnotismo, originadas pelos sucessivos equívocos de Mesmer à Charcot, esse novo método era eficaz e não comprometeria o psicanalista, caso esse não conseguisse hipnotizar seu paciente.

Freud, ao referir-se frequentemente em suas publicações ter feito uso da hipnose para a elaboração de sua teoria, provou sua validade e autenticidade. A partir dele, só por absoluto desconhecimento ou preconceito se pode duvidar da ocorrência dos transes hipnóticos e seus efeitos terapêuticos, bem como da sua importância para o êxito do tratamento psicanalítico. Sandor Ferenczi desconfiava da eficácia da psicanálise sem o uso da hipnose, chegando a classificar como “niilismo terapêutico”.

Quem também diz que Freud simulou ter abandonado a hipnose é Richard Webster(1999),[16] autor de “Por que Freud errou”, na sua versão mostra um Freud descomprometido com a verdade e ansioso por ser famoso. Webster parece concordar com Ferenczi quando admite não ter motivo para dissociar o tratamento psicanalítico do processo da hipnose e que seu uso seria uma perspectiva a mais na busca da cura do paciente. Ferenczi deixa claro que a hipnose é uma ferramenta fundamental para o psicanalista. No entanto, é preciso questionar quantos psicanalistas podem se tornar bons hipnotistas.

Freud além da alma

Como introdução aos conceitos da psicanálise e seu envolvimento com a hipnose, é recomendado conhecer um clássico do cinema americano, Freud além da alma. Em 1958, o cineasta John Huston propõe ao filósofo francês Jean-Paul Sartre que escrevesse um roteiro cinematográfico sobre Freud, mais precisamente sobre a época em que ele, através da hipnose, inventa a psicanálise. Sartre (1986) cobre o período da vida de Freud entre a graduação em Medicina até a defesa pública da teoria psicanalítica e se apoia na completíssima biografia sobre Freud escrita por Ernest Jones e nos livros Estudos sobre a histeria e A interpretação de sonhos. Se fosse utilizado no seu todo o roteiro se transformaria em um filme, no mínimo, com oito horas de projeção, por isso, Huston aproveitou apenas 20%.

Sartre, não aceitando os cortes no filme, rompeu com o cineasta. Tanto o roteiro (1958) como o filme (1962), cumprem a função de mostrar a origem da psicanálise e seu envolvimento com a hipnose. Mostram o início dos trabalhos de Freud e como se desenvolveu sua teoria e a rejeição da comunidade médica às suas ideias. Revelam como ocorreu o início da descoberta dos conceitos de transferência, livre associação, repressão, sexualidade infantil e o complexo de Édipo, como também, a criação e o desenvolvimento dos métodos de análise.

O filme Freud além da alma descreve como Freud desenvolveu a teoria da libido, tomando como ponto de partida o caso de um paciente que, sentindo desejo inconsciente por sua própria mãe, por ciúme teria tentado contra a vida do próprio pai. Associando o caso com a interpretação de um sonho que tivera, no qual se via envolvido com os sintomas de seu paciente, Freud teve que se aprofundar cada vez mais no seu passado para admitir a existência de atividade sexual nos primeiros anos da sua própria infância.

Freud denominou o complexo de Édipo como um conjunto de relações que vinculam a criança a seus pais. Relações que constituem o núcleo central da personalidade e seu desenvolvimento irregular seriam responsáveis pelas neuroses. A base da teoria é fundamentada na crença de que o filho sente ciúmes da mãe, que é o objeto de desejo do menino e o pai é o rival que impede seu acesso ao objeto desejado. Este processo também ocorre com as meninas (Édipo feminino) sendo invertidas as figuras de desejos e de identificação (Jung denominou de complexo de Electra).

Pela perspectiva do complexo de Édipo, os meninos odeiam o pai, as meninas a mãe, mas não reconhecem este ódio, pois isto é errado. Isto gera um conflito que, se não resolvido até a puberdade, irá interferir na idade adulta. Deixam marcas profundas na estruturação da personalidade, por exemplo, o ciúme neurótico pode ser explicado por um conflito edipiano mal resolvido e, diferencia-se do ciúme patológico em que a pessoa tem certeza de estar sendo traída, mesmo que todas as evidências mostrem o contrário. A ansiedade também seria um sintoma resultado da repressão da libido e um dos mecanismos de defesa é a sublimação, processo pelo qual a energia da libido, reprimida pelo superego e pelas convenções sociais é desviada para outros fins sociais e moralmente permitidos. A arte, por exemplo, pode ser produto da sublimação (Gay, 1986).[17]

Para a psicanálise, a maioria dos pensamentos e desejos reprimidos refere-se a conflitos de ordem sexual e ocorrem na vida infantil (dois a quatro anos). São experiências que, reprimidas, se confirmam como origem dos sintomas neuróticos na vida adulta. Freud, ainda criança, sentiu ciúmes da mãe e quando adulto, na fase da autoanálise, tem essas lembranças, mas reluta em aceitar que sentiu ciúmes não só de seu irmão, mas também de seu pai. Recorda que sua libido em relação a sua mãe havia despertado com quatro anos de idade quando a viu nua (Gay, 1986)

Segundo Lundin (1975),[18] neuróticos são indivíduos que não são psicóticos nem psicopatas, por isso, o termo neurótico não é pejorativo. Existem diferentes graus de neurose, os tipos principais são: Neurose Histérica e Neurose Obsessiva. Histérico é o neurótico de comportamento inconstante; imprevisível, emocionalmente descontrolado. O tipo obsessivo é o neurótico com comportamento constante e previsível; tem mania de perfeição e é obstinado, com ideias e atos que se repetem em rituais. São características das neuroses: perturbações cognitivas e emocionais menos severas; raramente deixa de estar voltado para seu ambiente; continua mais ou menos em contato com a realidade; tem alguma compreensão da natureza do seu comportamento; embora possa demonstrar o contrário, dificilmente se comporta de modo perigoso para si ou para os outros; raramente exige hospitalização.

Lundin (1975) define reações neuróticas como sendo ansiedade, fobias e reação do obsessivo-compulsivo. E diferente da psicose por ser uma forma externa de desorganização da personalidade. O psicótico não é moralmente responsável pelas suas ações e necessita de tratamento médico-psiquiátrico, às vezes, até de hospitalização.

Embora seja uma teoria muito bem elaborada, cujo conteúdo serve para fundamentação de várias ideias contidas em diferentes disciplinas de estudo, a psicanálise por si só não encontra respaldo como conhecimento acadêmico. No Brasil, conta contra a psicanálise o fato de que seu estudo não tem escola superior oficializada. Também cursos de psicanálise, em qualquer nível, realizados em outros países não são reconhecidos como válidos pelas Faculdades ou Universidades brasileiras. Estudos da psicanálise são realizados na modalidade de cursos livres, isto é, não têm fiscalização, autorização ou reconhecimento do Ministério da Educação. Portanto, não concedem grau, não há emissão de diploma e sim de certificado de conclusão emitido por Sociedades Psicanalíticas, instaladas em várias cidades do país e oferecidos para quem deseja dedicar-se à Psicanálise. Estes cursos têm duração média de dois anos para pessoas com qualquer formação superior independentemente da área de conhecimento.

O estudo da psicanálise é também oferecido, na modalidade de curso livre, para portadores de formação média. Neste caso, geralmente, têm duração de quatro anos e são dirigidos a pessoas interessadas em adquirir conhecimentos em Psicanálise e a quem quer aprender a dinâmica de seus problemas emocionais e afetivos de acordo com a teoria psicanalítica, ou se dedicar como terapeuta. Concluído o estudo proposto, o estudante recebe um Certificado expedido pela Sociedade que ofereceu o curso, por isso não é considerado como concluinte de um curso acadêmico.

Atuar na função de psicanalista é uma ação livre no Brasil, independe de formação em nível acadêmico. Não é uma profissão regulamentada, mas é uma função regulada pelo Aviso n º 257 de 1957 do Ministério da Saúde e classificada na Portaria 1334 de 21/12/1994 do Ministério do Trabalho e Emprego, Código Brasileiro de Ocupações CBO – 2515.50. Esta função pode ser exercida em consultórios, colégios, clínicas e instituições que atuam na área de saúde mental e no tratamento da psiconeurose. Psicanalista também não é sinônimo de analista, os seguidores de Jung e Adler são analistas e não psicanalistas porque não seguem Freud. Ser psicanalista é uma exclusividade dos freudianos, todo psicanalista é freudiano. Os lacanianos e os keianianos também são freudianos.

 

Referencias:

[2]Klein, M. V. Freud y la hipnosis. B. Aires, Editora Psique, 1958.

[3]LEX. Parecer do CFM nº 02/1998. In: Medicina Conselho Federal. DF, rev. n.98, p. 7, out., 1998

[4]Freud, S. Premissas e técnica de interpretação. In: Conferências introdutórias sobre psicanálise. RJ, Editora Imago, 1974.

[5]Freud, S. Textos escolhidos de psicanálise: Artigos sobre Hipnotismo e Sugestão – Hipnose. RJ, Editora Imago, p. 45 – 59, 1986 (Extraído do Volume I, edição standard brasileira, obras psicológicas completas).

[6]Sartre, J. P. Freud além da alma: Roteiro para um filme (Trad. Jorge Laclette). RJ, Editora Nova Fronteira, 1986.

[7] Nuttin, J. Psicanálise e Personalidade.RJ, Editora Talentos, 1967.

[8]Neubern, M. S. Três obstáculos epistemológicos para o reconhecimento da subjetividade na psicologia clínica. In: Psicologia e reflexão crítica. RS, v. 14, n.1, p. 241-252, 2001.

[9]Lerède, J. Além da Razão: o fenômeno da sugestão. SP, IBRASA, 1984.

[10]Freud, S. Obras completas de Sigmund Freud (Trad. por Jayme Salomão). RJ, Editora Imago, 1980.

[11]O caso de Fräulein Elizabeth von R. é a quinta das histórias clínicas, relatadas por Freud, em Estudos sobre histeria (N. do A).

[12]Freud, S. O ego e o id e outros trabalhos. RJ, Editora Imago, 2004.

[13]Jung, C. G. Reação, Análise dos sonhos, Transferência. In: Obras completas. v.2, 2ªed., RJ, Editora Vozes, 1990.

[14]Zilboorg, G. A history of medical psychology. EUA, W.W. Norton, 1941.

[15]Ferenczi, S. A técnica psicanalítica. In: Sándor Ferenczi, Obras completas. v. II, SP,Editora Martins Fontes, (1919) 1992.

[16]Webster, R. Por que Freud errou. SP, Editora Record, 1999.

[17]Gay, P. FREUD: Uma vida para o nosso tempo. SP, Editora Companhia das Letras, 1986.

[18]Lundin, R. W. Personalidade: Uma análise do comportamento. 2ª ed., SP, Editora EPU, 1975.

 

Notas:

  1. a) O Texto deste Artigo foi extraído do Livro CARREIRO, A. A.  Hipnose: Mítica, Filosófica e Científica. Editora JM, 2014 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.
  2. b) Antonio Carreiro é Doutor em Ciências, Mestre e Bacharel formado pela Universidade Federal da Bahia.


Author: Carreiro
Professor Antonio Carreiro é mestre e doutor em ciências formado pela Universidade Federal da Bahia, estudou Psicanálise e Terapêutica da Hipnose. Em suas constantes viagens pelo mundo especializou-se na hipnoterapia, revelando uma nova maneira de ver a Hipnose, reconhecer, entender e controlar forças inconscientes para operar em melhorias na qualidade da vida humana. Com mais de 50 anos atuando na área do hipnotismo e na docência acadêmica Antonio Carreiro é personagem consagrada, seus livros, mais de 100 mil exemplares vendidos, são apresentados em vários idiomas. Titulação e experiência no Magistério Internacional comprovada.

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