Magnetismo e Mesmerismo

Antonio A. Carreiro, Dr. Sc.

Na atualidade falar de magnetismo e ou mesmerismo, fundado por Franz Anton Mesmer (1734–1815), como teoria explicativa dos processos hipnóticos é prova de desconhecimento, é se valer de ideias superadas, embora de relevância histórica, para se referir ao hipnotismo. É necessário conhecer a origem dessas ideias, bem como o processo de mudanças e superações que se desenvolveram ao longo do tempo, saber como foram substituídas por concepções afastadas de misticismos, próprio do pensamento mágico religioso que fundamentou a educação de seu criador.

Mesmer nasceu em Iznang, Swabia, uma aldeia na margem do lago Badensee perto de Konstanz, na Alemanha. Teve suas primeiras instruções em uma escola religiosa e, aos dezoito anos, ingressou na Escola Jesuíta de Teologia, em Dillingen. Dois anos depois, foi para a Universidade Jesuíta de Ingolstadt, onde estudou por três anos teologia e filosofia. Em 1759 ingressou no curso de Direito, em Viena, mudando, no ano seguinte, para medicina (Zweig, 1932). [1]. Estudar filosofia o fez perceber o Cosmo como os filósofos antigos receitavam, conhecia o elemento água como um ponto de partida para compreender a natureza das coisas e dos homens (Carreiro, 1997).

Em todas as civilizações, a cosmologia foi sempre um elemento presente na cultura e o que se entendia como influência dos astros e do céu na vida das pessoas, terminou impregnando a literatura e as ideias dos mais diferentes pensadores. Essa influência é observada no italiano Dante Alighieri (1265-1321), que se fez célebre com sua comédia escrita em 1307, a Divina Comédia. Dante toma por base a corrente filosófica de sua época para representar um modelo aristotélico simplificado do Cosmo. Mesmer não fez por menos; a formação básica recebida em um colégio de jesuítas permitiu a ele o domínio do conhecimento filosófico, conheceu também as traduções das obras de Aristóteles e Ptolomeu, assim como os tratados árabes e comentários sobre antigos e textos de ciência grega que se difundiram no Ocidente entre os séculos XII e XIV, sobretudo procedentes da cultura islâmica.

A percepção do Cosmo ligado às ideias de ordem, harmonia, serenidade, circularidade e beleza, associada à importância dos elementos primordiais da natureza (terra, água, fogo e ar), concepções sustentadoras do núcleo central do início do pensamento filosófico, embora decadentes no século XVIII, muito influenciaram as ideias de Mesmer. Interessando-se também pela física, matemática e biologia, desistiu da carreira religiosa para seguir o estudo da medicina. E, com base na ideia da existência de um fluido astral que influencia a vida na terra associado ao poder dos metais magnéticos descritos por Paracelso, Mesmer elaborou a teoria do “magnetismo animal”, marco teórico inicial nas principais publicações que trata dos efeitos e da prática da Hipnose e da Hipnoterapia.

Aos 32 anos Mesmer obteve o título de médico e, para isso, apresentou na escola de medicina, em Viena, a Dissertação físico-médica sobre a influência dosplanetas (De Planetarium Inflexu), publicada em 1766. A base teórica para o desenvolvimento da sua pesquisa foi fundamentada no conhecimento filosófico, ainda influente nos séculos XVI e XVII, somada às ideias de Paracelso, Helmont, William Maxwell, todos praticantes da alquimia e do magnetismo como forma mágica e oculta da arte de curar. Sua teoria ganhou o mundo através de seus discípulos e seguidores.

O Padre Maximilian Hell (1720-1792), um jesuíta que foi diretor do observatório e professor de astronomia da Universidade de Viena, em 1770, com base na hipótese do magnetismo metálico de Paracelso, resolveu também intentar curas reorganizando os “polos magnéticos humanos”, aplicando ímãs naturais com o formato do órgão a que se destinava curar. Criou também a celebre frase “não se sabe ainda quantas superstições há na Ciência e quanta Ciência há nas superstições”. Mesmer, influenciado pelos êxitos de Hell, também aplicou ímãs naturais em seus pacientes. Disso resultou a notícia de curas espetaculares em doentes desenganados.

Em 1773, Mesmer montou em Viena sua clínica de magnetismo e aplica ímãs naturais pela primeira vez em Franziska Osterlin, de 28 anos, pessoa envolvida na alta sociedade vienense que sofria com convulsões, febre, vômitos, delírios, crises de rigidez, cegueira, sufocação e paralisia. Esses sintomas foram cem anos depois classificados como sendo da histeria. É do próprio Mesmer a descrição de como realizou, em 28 de abril de 1774, uma das sessões do tratamento de Osterlin:

Há dois anos ela apresentava crises convulsivas acompanhadas de febre, vômitos, delírio melancólico e maníaco, crises de rigidez, cegueira, sufocação e paralisia. Percebendo a periodicidade das crises, às quais atribuí um caráter astronômico, procurei modificar seu curso. Eu planejei estabelecer em seu corpo uma espécie de maré artificial com a ajuda do ímã e de forma a reproduzir artificialmente as revoluções periódicas do fluxo e do refluxo da corrente magnética (MESMER, 1954). [2]

Mesmer conta que após ter medicado Osterlin com infusões à base de ferro, por ser esse metal bom condutor do magnetismo, prendeu um ímã em forma de coração sobre o peito da paciente e, imediatamente, ela experimentou uma dor abrasadora e dilacerante. As pessoas que assistiam a esse tratamento horrorizavam-se com os gritos e, apesar da reação da assistência, Mesmer não hesitou em acrescentar mais dois outros ímãs, um em cada pé da paciente. Após isso, Osterlin sentiu descer com impetuosidade as dores que tinham atormentado as partes superiores de seu corpo, desaparecendo gradativamente os sintomas.

Quanto aos efeitos positivos sobre a cura de Osterlin, Mesmer tratou de conceituar como impossíveis de serem provocados somente pelo uso dos magnetos naturais e sim por um “outro agente essencial”. Dizia que as correntes magnéticas foram provocadas pela paciente através de um fluido que se havia acumulado em sua própria pessoa; era a ação do seu próprio magnetismo, um “magnetismo animal”. O magneto natural utilizado funcionou apenas como um acessório, como um reforço. Referindo-se ao que conceitua como magnetismo animal e seus efeitos, afirma:

Há uma ação e reação recíproca entre os planetas, a Terra e a Natureza, por intermédio de um constante fluido universal, sujeito a leis mecânicas ainda desconhecidas. O corpo animal é diretamente afetado pela insinuação deste agente na substância dos nervos. Dito agente causa em corpos humanos, propriedades análogas às do ímã, motivo por que é chamado “magnetismo animal”. Este magnetismo pode ser transmitido a outros corpos, pode ser aumentado e refletido por espelhos, comunicado, propagado, e acumulado pelo som. Pode ser acumulado, concentrado e transportado. As mesmas regras se aplicam à propriedade contrária. O ímã é suscetível de magnetismo e de propriedade oposta. O ímã e a eletricidade artificial têm, com referência a moléstia, propriedades comuns a uma multidão de outros agentes que a natureza nos apresenta, e se o uso destes for seguido de resultados úteis, são devidos ao magnetismo animal (MESMER, 1954).

Mesmer inovou a hipótese até então existente; não era o magneto natural que provocava curas, como anunciado por Paracelso e pelo Padre Hell, era a ação do magnetismo próprio do Ser Humano. Defendia a tese de que não era preciso o ímã metálico; bastaria impor as mãos sobre o doente para que este recebesse a transferência dos fluidos magnéticos. Demonstrando suas conclusões, fazia aparecer e sumir vários sintomas nos pacientes, inclusive convulsões, com um simples toque do seu dedo. Dizia ainda acreditar que o padre Gassner realmente estaria empenhado na cura dos enfermos, mas ele não fazia exorcismos e, sim, usava o magnetismo animal sem perceber. Completava seu argumento afirmando que esta força poderia passar das mãos do magnetizador para os pacientes, podendo também ser armazenado em árvores ou transportado por varinhas, espelhos, vasilhas contendo água, cristais e outros instrumentos.

Respaldando seu estudo em hipóteses antecedentes, Mesmer encontrou justificativa suficiente para estabelecer a ideia da existência de um fluido, invisível e miraculoso que agia sobre os seres vivos. Dizia que o fluido circulava em uma corrente universalmente difundida que em tudo penetra e abraça, num movimento alternativo e perpétuo, assemelhando-se ao fluxo e refluxo do mar, responsabilizava esse fluido e esse movimento como causa da saúde e da doença no Ser Humano. Dizia que tal influência era recebida dos Astros através da cabeça e da Terra através dos pés; no corpo humano sadio o fluido circulava num fluxo contínuo e impedir este fluxo traria como consequência uma enfermidade. A cura dependeria da retirada ou destruição do obstáculo para que pudesse voltar a circular normalmente.

Antes de Mesmer, a ideia de fluidos invisíveis já fazia parte do imaginário de muitos homens cultos. Paracelso acreditava que forças magnéticas, em particular aquelas provenientes das estrelas, influíam sobre as pessoas através de ondas invisíveis. Isaac Newton, em sua publicação Principia, já explicitava o que acreditava ser “a presença do espírito extremamente sutil que permeia e se oculta em todos os corpos densos”. O cientista sueco Carlos Lineu (1707-1778) dizia que na vida dos vegetais ocorria a presença de um “fluxo magnético sutil” camuflado sob os mais variados nomes, entre os quais gravidade, gases, energia e força vital. A ideia de matéria fluídica antecede Mesmer em muitos séculos, as filosofias alquimistas fundamentavam a origem, constituição e evolução fluídica o Universo.

No ano de 1785, Mesmer publicou em Paris uma série de 27 aforismos (Les aphorismes de Mesmer dicté a l’assemblé de ses elevem), descrevendo os princípios de sustentação da tese do magnetismo animal e como seus seguidores poderiam pratica essa complicada teoria. Na Europa, o mesmerismo foi um dos assuntos mais divulgados entre 1779 e 1789 e, com isso, Mesmer viveu em um período da história que favoreceu a divulgação de suas ideias como sendo boas e adequadas, porém teve momentos de glória e de fracasso, principalmente em Paris (Mesmer, 1954).

A segunda metade do século XVIII foi quando a sociedade europeia, em particular a França, presenciou grandes transformações para a humanidade. Livros como O Espírito das Leis (1748) de Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu; O Contrato Social (1762) de Jean-Jacques Rousseau; Cartas Filosóficas (1773) de François-Marie Arount conhecido como Voltaire; A Ordem Natural das Sociedades Políticas (1767) de La Riviére, faziam parte de leituras que induziam o povo a pensar, ampliar seus conhecimentos e a percepção de si mesmo, descrevendo como cada cidadão é capaz e merecedor de melhorias, era a fase do humanismo.

O mundo estava vivendo as grandes descobertas da ciência cartesiana na área da matemática e da física; a eletricidade e seus efeitos eram objetos de estudos intensos, a descoberta do eletromagnetismo e do para-raios fascinava a todos. Era o que se chamava na Europa Le bélle epoque; uma fase de efervescência de novas ideias filosóficas sobre o sentido da vida e de explicações científicas para esclarecer os fenômenos físicos, uma época de revelações, ideias e explicações e o povo acreditava que havia resposta para tudo (Braga, 2008). [3]

As formulações científicas na área da física, as ideias de ação e reação, atração dos corpos e o eletromagnetismo foram descobertas consideradas como revolucionárias e extremamente racionais. Neste cenário, o homem acreditava que, aliando o conhecimento com a tecnologia e a ciência, não seria jamais limitado por nada nem por ninguém. Esse otimismo incentivava a criação de uma imensa gama de teorias, inclusive as que explicassem o Ser Humano e sua complexidade. É nesta fase que Mesmer, fazendo analogia com a física e com as aplicações terapêuticas dos metais magnéticos, divulgado por seus antecessores, imaginou a sua teoria.

Por conta dos avanços da ciência e da tecnologia, entre 1750 e 1800 ocorreu grande mudança no conceito popular, o grande público demonstrava interesse cada vez maior pela explicação científica dos fenômenos presentes na natureza humana e acreditava no poder da ciência para explicar tudo. Mas o mesmerismo ou o magnetismo animal ainda faziam parte do imaginário cosmológico desta época de transição na história do pensamento filosófico para o pensamento científico. Cuja tendência era a de misturar pesquisa experimental com pensamento especulativo e místico, sobretudo associando ideias que envolviam a fascinação pelos fenômenos de natureza magnética e elétrica. É nesta atmosfera que Mesmer propaga sua teoria que ganharia o mundo através de seus discípulos e seguidores.

Satisfazendo a expectativa da sociedade, Mesmer dá a sua explicação para o fenômeno que desencadeava, tentando ao máximo se aproximar da ciência dominante, embora suas ideias fossem baseadas na cosmologia e princípios filosóficos antigos. Defendia a existência de uma influência mútua entre os corpos celestes e, como justificativa, apresentava as fases da Lua agindo sobre as marés, a força do Sol atraindo a Terra para mover-se em sua volta. Dizia que essa força invisível era semelhante à força do ímã que atrai o ferro, igual à força magnética que, embora ninguém possa ver, existe. Acreditava que os cristais, superfícies espelhadas, alguns metais e principalmente a água, poderiam acumular grande quantidade dessa força invisível.

Pensando o corpo humano como um grande ímã, composto por vários ímãs pequenos, Mesmer sustentava a tese de que massageando os polos magnéticos do corpo, se efetuaria a superação do obstáculo que impedia a circulação do fluido universal e, assim, estabelecia a cura das doenças. Inventou alguns aparelhos que reforçavam suas hipóteses, como um instrumento de cerâmica em forma de cone que encerado, molhado e acionado por um pedal, era posto a rodar. Neste instrumento deixava escorregar os dedos das mãos até que a fricção produzisse um som que ele interpretava como sendo gerado pela acumulação do seu magnetismo animal. Também com o mesmo objetivo, friccionava com as mãos tecidos de seda, plumas e outros objetos macios, associando essa prática com a produção e efeitos da eletricidade estática, para em seguida magnetizar seus pacientes que entravam numa espécie de convulsão e promovia cura.

Em Viena, utilizando o novo método, várias pessoas foram tratadas por Mesmer, entre elas destaca-se Maria Theresia von Paradis (1759 – 1824), na época com 18 anos de idade. Era vítima de seu próprio pai numa relação incestuosa forçada, sofria com frequentes crises e sintomas somáticos severos como vertigens, dores de cabeça, insônia, além de cegueira histérica. Já havia recebido tratamento dos médicos mais renomados de Viena, entre eles o influente vienense Doutor Stoerk, que a fez passar por dezenas de sangrias e centenas de choques elétricos, sem obter qualquer melhora em seu quadro clínico. Encarregado do tratamento, além dos passes magnéticos, Mesmer lhe devotava carinho, atenção e amor, até que a paciente recuperou a visão.

Mesmer teve origem pobre, filho de um “guarda-caça”, função semelhante a guarda-florestal, encarregado de zelar e preservar certos locais e servir a nobreza no esporte da caça. Dois anos depois de sua graduação em medicina, Mesmer casou-se, em 10 de janeiro de 1768, com a rica viúva Marie Anna von Posch, mais velha do que ele 20 anos, que lhe proporciona acesso à classe dominante. Movida pelo ciúme Marie alia-se ao pai de Theresia von Paradis e ao Doutor Stoerk que contestava a tese do magnetismo animal e, os três insuflam os médicos de Viena iniciando forte campanha difamatória contra Mesmer; disso resultou sua expulsão da cidade em 1776.

Em 1778, Mesmer já estava estabelecido em Paris onde encontrou definitivamente um campo propício para difundir suas ideias; o mesmerismo tornou-se moda na aristocracia francesa, era o assunto de todos os salões. Embora em Viena fosse tentado tratar pelo método do magnetismo qualquer tipo de doença, em Paris Mesmer descartou o tratamento das enfermidades repulsivas como deformidades físicas permanentes ou congênitas, chagas, portadores de loucura agressiva e casos de idiotia. Esses casos na verdade nunca apresentaram resultados positivos com o tratamento mesmerista.

No ritual de cura, os pacientes de Mesmer eram tocados com uma vara de metal para receber os fluidos e provocar as convulsões terapêuticas. Mais tarde ele passou a acreditar que existiam vários polos magnéticos no corpo humano e que a maior parte deles muda constantemente de lugar, impedindo a circulação do fluido pelo corpo e provocando doenças e, por isso, tinham que ser arrumados através de passes magnéticos através da imposição das mãos; assim, produzia as mesmas convulsões, iguais às obtidas com o processo anterior. Dizia, ainda, que alguns polos magnéticos do corpo humano são estáveis, como os dos dedos e do nariz.

Mesmer criou os passes magnéticos, sustentando a hipótese que com a imposição das mãos, fluidos magnéticos saindo pelos dedos, eram transmitidos de uma pessoa para outra, em analogia com a teoria da eletricidade que afirma “os elétrons fluem de um corpo para outro pelas extremidades”. Este enunciado (lei das pontas) fundamentou B. Franklin na invenção do para-raios. Com essa fundamentação teórica, Mesmer passou a magnetizar e a produzir convulsões em seus pacientes segurando-lhes as mãos e fitando-lhes os olhos durante alguns minutos; depois iniciava os passes apontando os dedos em direção da cabeça, descendo vagarosamente quase sem tocar no corpo; parava um instante nos olhos, exercendo com os dedos indicadores uma ligeira pressão na base do nariz do paciente. Prosseguia descendo as mãos, parando na altura do tórax onde fazia uma leve pressão; depois no estômago, o itinerário seguia pressionando levemente as coxas até chegar aos joelhos. Dali retornava, experimentando as mesmas estações intermediárias até alcançar novamente a cabeça. Esse expediente no decorrer da história foi aproveitado e adaptado, é até hoje usado com ligeiras modificações com o objetivo de produzir curas durante rituais religiosos ou filosóficos.

As sessões de curas magnéticas foram evoluindo e os participantes aumentando. Não podendo mais atender à numerosa clientela, Mesmer recorreu à magnetização indireta, dispensando seu toque pessoal no cliente. Vinte a trinta pessoas sentavam-se em volta de uma tina contendo água, de onde saiam varas metálicas. Estabelecendo contato com essas varas, num recinto escurecido por cortinas e ao som de músicas suaves, os participantes eram acometidos de convulsões terapêuticas. Este método engenhoso de hipnotizar e promover curas coletivas conquistou proporções espetaculares. Medeiros e Albuquerque (1956)[4] descreveu sobre o sucesso do mesmerismo em Paris:

Aí o sucesso foi indescritível. O número de clientes chegou a extremo nunca visto até então. O médico não bastava. Adestrou um criado nas práticas necessárias para ajudá-lo, mas nem assim pôde satisfazer à clientela, cada vez mais numerosa (MEDEIROS E ALBUQUERQUE, 1956).

Em Paris, em volta da tina de Mesmer cabia cento e trinta pessoas que se colocavam em vários círculos, um por traz do outro, o primeiro círculo junto ao aparelho seguido por trás outros círculos, todos permaneciam com a mão sobre o ombro de quem estava em sua frente até entrarem em transe e, a turma se renovava várias vezes por dia. O aparelho é descrito como sendo uma caixa redonda de madeira de carvalho medindo aproximadamente um metro e oitenta centímetros de diâmetro por setenta centímetros de profundidade. No seu interior, com o argumento de melhor atrair o magnetismo, tinha um lastro de limalha de ferro e, de vez em quando, era adicionado vidro em pó. Por cima do lastro havia uma lâmina de água para ser magnetizada.

Na tina tudo era feito para manter semelhança de um acumulador de fluido, como o acumulador leyden, a explicação do funcionamento tinha que ser “científica”. Mesmer e seus seguidores alegavam que a terapêutica desenvolvida por ele se fundamentava na ciência, principalmente em um importante tratado intitulado de O peso e o equilíbrio dos fluidos escrito por Isaac Newton. Em defesa de sua teoria dizia que o fluido magnético era apenas uma analogia a outras forças físicas como a gravidade e o magnetismo mineral. Os cientistas ainda não falavam em energia elétrica e sim em fluidos elétricos, isso parecia reforçar ideias filosóficas sobre a existência de fluidos universais invisíveis, do fluido vital e sua aplicação na saúde, rejuvenescimento e longevidade (Bué, 1945).

Da parte superior da tina de Mesmer saíam varas de ferro, com extremidades externas curvas e móveis, ligadas por fios de seda a uma haste metálica central. Garrafas cheias de água, com hastes metálicas que saíam através das rolhas, eram colocadas dentro da tina para que, quando transportadas para outros locais, pudessem produzir os mesmos efeitos. O argumento era que a garrafa contendo água acumulava o fluido, assim como a garrafa de leiden, um protótipo do condensador elétrico, inventado por Petrus van Musschenbroek por volta de 1749, que acumulava eletricidade.

Em Paris, os doentes sentados ao redor da tina aplicavam as varas de ferro sobre suas partes enfermas. Mesmer afirmava que uma corda de seda, amarrada na vara central, era o fio condutor do magnetismo. A corda era comprida o suficiente para que os participantes a colocassem frouxamente pela cintura e, na primeira fila, de mãos dadas reforçavam a ação do fluido magnético. François Deleuze, um bibliotecário que, na época, assistia aos trabalhos de magnetizações, publicou um livro sobre o assunto e descreveu uma dessas cenas:

Num dos compartimentos, sob a influência das varetas, que saíam de garrafas contendo água magnetizada, aplicada às diversas partes do corpo, ocorriam diariamente cenas extraordinárias. Gargalhadas satânicas, gemidos e crises de pranto se alternavam. Indivíduos atirando-se para trás, contorcendo-se em convulsões espasmódicas. Respirações semelhantes às de moribundos e outros sintomas horríveis se viam por toda parte. Subitamente esses estranhos atiravam-se, uns aos braços dos outros ou então se repeliam com expressões de horror. Enquanto isso, num outro compartimento, com as paredes devidamente forradas, apresentava-se outro cenário. Ali mulheres batiam com as mãos contra as paredes ou rolavam sobre o assoalho coberto de almofadas, com acessos de sufocação. No meio dessa multidão ofegante e agitada, Mesmer, envergando um casaco de seda lilás, movia-se soberanamente, parando, de vez em quando, diante de uma das pacientes mais excitadas. Fitando-lhe firmemente os olhos, enquanto lhe segurava ambas as mãos, estabelecia contato por meio de seu dedo indicador. Também operava fortes correntes, abrindo as mãos e esticando os dedos, enquanto com movimentos ultrarrápidos cruzava e descruzava os braços, para executar os passes finais (DELEUZE, 1956). [5]

A compreensão da ligação do mesmerismo com o hipnotismo atual inicia por analisar o interior da clínica onde ficava a célebre tina de madeira, um aparelho de tanta eficácia que dispensava até a presença de Mesmer nos rituais. Tudo era disposto de forma a provocar uma forte indução sugestiva no paciente; tapetes espessos, misteriosa decoração astrológica nas paredes e cortinas cerradas, compunham o ambiente onde se realizavam as sessões. Além disso, existia também outra sala forrada de colchões, destinada aos pacientes com ataques convulsivos mais violentos. Mesmer esforçava-se verbalizando sua teoria para provocar nos pacientes o máximo possível de tensão emocional e eles reagiam de forma inexplicável; uns apresentando convulsões, outros gritavam, choravam ou gargalhavam. Tudo isso era responsável pela criação de uma atmosfera propícia aos devaneios da imaginação dos homens do século XVIII, uma imaginação ainda povoada pelo maravilhoso, por monstros, demônios e encantamentos. Mas o certo é que curas espetaculares aconteciam.

Na evolução de sua prática o argumento explicativo de Mesmer muda, passa a ter por base que a força do magnetismo era ativada pelas mãos e facilmente conduzida pelas coxas. Para garantir a formulação do sofisma que mais convencesse tudo era associado a um fato científico como a corrente elétrica. Os pacientes eram orientados para formarem uma corrente, sendo colocados uns ao lado dos outros, alternando-se homens e mulheres (análogo à polaridade elétrica, positivo negativo) comprimindo as coxas entre si e logo começavam a sofrer convulsões. Durante as sessões, auxiliares retiravam os pacientes mais afetados, em transe convulsivo ou em estado cataléptico, os de choro alto e risos histéricos eram também eram conduzidos à sala de crise. Essa ruidosa sala ficou conhecida como a Câmara das Crises ou o Inferno das Convulsões.

Mas, pelos relatos históricos, Mesmer efetivamente acreditava em suas “verdades científicas”. O baqueiro L. Medice, presenciando as sessões magnéticas secretas, visualizou como uma atividade potencialmente lucrativa e resolveu transformar as sessões em atendimentos públicos. A partir daí o sucesso de Mesmer foi muito rápido, chegando a alugar um palácio (Place Vendôme) e fazendo da sala principal seu novo consultório, capaz de receber cento e trinta pacientes por sessão. Neste ambiente atendeu a rainha Maria Antonieta, o legislador Montesquieu, o iluminista La Fayette, entre outros nomes da nobreza e da intelectualidade parisiense.

Na fase de glória atendia a mais de mil pessoas por dia e, como não podia atender a todos, magnetizou uma árvore em frente do salão para que nela tocassem, em busca de cura, aqueles que não conseguiam entrar na clínica. Assim como aconteceu em Viena acontece também em Paris; a classe médica enciumada lhe moveu mais um processo de perseguição. Em 12 de março de 1784, o rei Luís XVI, instigado pelos médicos, nomeou uma comissão de sábios para investigar a natureza do fenômeno mesmerista (Carreiro, 1997).

As críticas mais contundentes contra o mesmerismo vieram da Faculdade de Medicina, da Academia de Ciências e da Sociedade Real de Medicina. As duas primeiras trataram de instituir uma comissão de investigação oficial composta por: a) Benjamin Franklin, na ocasião embaixador americano em Paris e inventor do para-raios; b) o químico Antoine-Laurent Lavoisier, cientista conhecido como o pai da química moderna; c) Jean-Sylvain Bailly, astrônomo conhecido pelos cálculos da órbita do cometa Halley e pelos estudos sobre os quatro satélites de Júpiter, estadista e Prefeito de Paris; d) o médico Joseph-Ignace Guillotin, o mesmo que oito anos depois inventaria a guilhotina; e) Antoine Laurent de Jussieu, médico pela Universidade de Montpellier, Diretor do Jardim Real e membro da Academia de Ciências de Paris. Todos encarregados de investigar a legitimidade do fluido magnético e das curas anunciadas (Crabtree, 1988). [6]

Antes de se estabelecer no Place Vendôme, com a ajuda de Luis XVI e Maria Antonieta, instalou uma sociedade secreta criada por ele para formar novos seguidores ou magnetizadores. Prometendo sigilo, os membros da Sociedade da Harmonia aprendiam, com base na harmonia entre os Astros celestes e os seres humanos, a concentrar os fluidos magnéticos e a comunicar para outras pessoas em busca de cura. Por isso, Mesmer foi, preliminarmente, acusado de ser o detentor e criador de uma doutrina que só se dispunha revelar seus segredos aos membros subscritos.

Uma petição dirigida por Mesmer à Academia Francesa, em data anterior à nomeação da comissão, requerendo a investigação científica para seu método de cura sequer foi indeferida; foi simplesmente ignorada. Indignado, posteriormente quando procurado pela comissão oficial, Mesmer recusou-se provar suas “verdades” e não ofereceu resistência às acusações, deixando sua defesa a cargo dos fatos e de seus discípulos.

Diante da negativa de Mesmer de provar sua teoria, a comissão tratou de investigar as práticas mesmeristas realizadas pelo seu discípulo Charles D‘Eslon, médico respeitado e professor da Faculdade de Medicina de Paris, que se prontificou com os investigadores a compartilhar a totalidade do seu saber e da sua experiência. Assim, o que estava sendo julgado era a prática do magnetismo animal e não Mesmer. Durante a fase de investigação, a comissão limitou-se a presenciar demonstrações, os cientistas enfiaram as mãos na tina do banho magnético e não lhes provocou os efeitos esperados, nada de crises ou de convulsões, nada de fluido ou coisas semelhantes foi registrado.

Afirma Chertok (1990) [7] que D‘Eslon se comprometeu com os comissários para: 1) constatar a existência do magnetismo animal; 2) comunicar seus conhecimentos sobre essa descoberta; 3) provar a utilidade do magnetismo animal no tratamento das enfermidades. Entretanto, não deveria ter assumido tal compromisso desde quando fora iniciado na Sociedade da Harmonia, portanto, fez votos de sigilo e devia fidelidade a Mesmer; mesmo assim assumiu com intenção de provar que a teoria era verdadeira, mas ficou surpreso com os resultados e como os membros da comissão procederam, com exceção de Jussieu. Para D‘Eslon, a condenação do mesmerismo não foi pertinente.

Embora o sistema de cura apresentado por Mesmer garantisse a objetividade pratica, levantava suspeita de simulação e fraude pelo teor subjetivo de variáveis imponderáveis e qualitativas como fluido, vida, harmonia e natureza. Era impossível a constatação do fluido magnético, dele só se conhecia os efeitos e as curas realizadas, mas não era perceptível aos sentidos humanos. Mas a comissão tinha o desafio de testar a existência do fluido e provar a teoria através de testes e explicações racionais. Os comissários apresentavam aos pacientes objetos, sem que ele soubesse que haviam sido magnetizados, dizendo que se o fluido realmente existisse, os pacientes deveriam apresentar convulsões e, isso não acontecia. O uso deste e outros experimentos ingênuos, formulados pelo químico Lavoisier, marcou a origem dos ensaios clínicos controlados (Chertok, 1990).

Após cinco anos de estudos os membros da comissão de julgamento escreveram quatro relatórios. Três foram desfavoráveis ao magnetismo animal, sendo o 1º e o 2º públicos e o 3º secreto. Os relatórios públicos não negaram as curas, no entanto afirmavam que os fenômenos atribuídos ao magnetismo animal eram causados por efeito da imaginação e da imitação. Não havia evidências experimentais para sustentar a existência física do magnetismo animal. Afirma o 1º e o 2º relatório que “Nada há que prove a existência do fluido magnético animal… Tudo era à base de excitação da imaginação e de pura imitação mecânica… A imaginação separada do magnetismo produz convulsões, e o magnetismo sem imaginação nada produz…”. Complementa a acusação o fato de que a magnetização não ocorria se o indivíduo não soubesse que estava sendo submetido a tal prática.

O 3º relatório contra o mesmerismo era sigiloso e redigido apenas por Bailly, foi enviado para o Rei Luís XVI com objetivo de alertar para os riscos de que o magnetismo animal fosse usado para perverter sexualmente as mulheres e, por isso, era contra a moral e aos costumes da sociedade francesa. Expunha a suspeita da existência de elementos sexuais na relação entre o magnetizador e as pacientes magnetizadas que, por sua vez, ameaçaria a ordem moral. Bailly notificava o rei para que este tomasse as providências necessárias para a manutenção dos “bons costumes”. Braga (2008) descreve parte deste relatório e diz ser uma tradução direta do original:

Quando essa espécie de crise se prepara, o rosto vai se afogueando gradativamente, o olhar se tornar ardente, e é esse o sinal através do qual a natureza anuncia o desejo…. Tão logo esse sinal se manifesta, as pálpebras ficam úmidas, a respiração sôfrega, entrecortada, e o busto se elevam e se abaixa rapidamente; instalam-se as convulsões, assim como os movimentos precipitados e bruscos, seja dos membros, seja do corpo inteiro. Nas mulheres vivas e sensíveis, o último grau, a conclusão da mais doce das emoções, é muitas vezes uma convulsão. Após a crise sucede um abatimento, uma espécie de “sono dos sentidos”. A lembrança dela não é desagradável; as mulheres sentem-se melhor e não tem nenhuma aversão a senti-la de novo. Como as emoções experimentadas são os germes das afeições e pendores, compreende-se porque o magnetizador inspira tanto apego: um apego que deve ser mais acentuado e mais vivo nas mulheres do que nos homens, tanto que o exercício do magnetismo só é confiado aos homens. Muitas mulheres, sem dúvida, não experimentam esses efeitos, enquanto outras ignoram a causa dos efeitos que experimentam; quanto mais virtuosas são, menos suspeitam de tal causa, asseguramos que várias se aperceberam dela e se retiraram do tratamento magnético; mas as que ignoram precisam ser preservadas… Um estado experimentado quase que publicamente, em meio a outras mulheres que também parecem experimentá-lo, não oferece nada de alarmante; fica-se ali, volta-se para lá, e só se percebe o perigo quando já é tarde demais. Expostas a esse perigo, as mulheres fortes se afastam, mas as fracas podem perder seus bons costumes e sua saúde (3º RELATÓRIO apud BRAGA, 2008).

As conclusões dos três primeiros relatórios condenam integralmente a prática do mesmerismo, afirmando que a predisposição do sujeito enfermo era condição para atingir a cura. Mas Jussieu, insatisfeito com a metodologia empregada pela comissão, saiu do grupo, desenvolveu um estudo paralelo e escreveu o 4º relatório fundamentado em suas observações de campo defendendo o mesmerismo. Apresenta à Corte Francesa e à Academia de Ciências suas conclusões, descartando a teoria do magnetismo animal e concordando que agentes como a imaginação, a imitação e o toque pessoal contribuíam para os efeitos observados. Porém, defendia que muitos aspectos que observou não se explicavam somente pela imaginação, incluindo-se aí as curas, relatando também que durante as práticas constatou a presença de um agente desconhecido, ao qual designou de “calor animal”. Os pacientes setia fortemente o calor desprendido pelas mãos do magnetizador, eram por eles atraídos e acompanhavam seus movimentos, mesmo com os olhos fechados (Jussieu, 2004). [8]

Embora os relatórios da comissão pretendessem dar uma explicação racional do que acontecia nas sessões de magnetismo, suas conclusões fogem a lógica cartesiana. Criaram um grande paradoxo negando as práticas mesmeristas, dizia ser possível a imaginação intervir no corpo chegando ao ponto de curar doenças. Ao considerar que tal fato realmente ocorria validava parte da teoria de Mesmer e reconhecia como verdadeiras as ideias defendidas por Avicena, no século X, que afirmava ser possível “pela palavra, pela vontade e pela persuasão, muitos padecimentos serem curados”.

Após a publicação dos relatórios, em 1784, apareceu grande quantidade de tratados e protestos de dezenas de médicos, alguns apoiaram as conclusões, enquanto outros, que haviam usado o magnetismo animal e obtido muito sucesso, criticavam os comissários tanto pelas suas atitudes, principalmente pelas técnicas de investigação empregada. Em Paris, os defensores da condenação passavam a ridicularizar Mesmer como charlatão, publicavam panfletos com caricaturas satirizando o mesmerismo e patrocinavam peças teatrais satirizando o magnetismo animal e os seus praticantes, expondo o poder disciplinador que a ciência ostenta sobre o pensamento místico, retratando o magnetizador como um bruxo. (Crabtree, 1988).

Com base na condenação do magnetismo animal a Sociedade Real de Medicina resolveu processar Mesmer. Agora era ele quem deveria ser julgado na sua conduta médica. Indignado, D‘Eslon assumiu a defesa e, referindo-se ao primeiro julgamento, dizia ter ouvido inúmeras vezes o argumento de que todas as curas comprovadas foram provocadas pela imaginação do próprio paciente. Questionava D‘Eslon no segundo julgamento; “E se for verdade? Se o segredo do Doutor Mesmer é manipular a imaginação para fazê-la operar em prol da harmonia física e mental do paciente? Isso não seria, só por isso, um grande avanço para a medicina? ”. Insistia para que a prova fosse buscada nos efeitos curativos do fluido hipotético, mas a argumentação da defesa de nada valeu. Mesmer foi condenado como charlatão e impedido de praticar a medicina.

A partir do resultado do segundo julgamento, a Faculdade de Medicina de Paris proibia a qualquer médico se declarar partidário do Magnetismo Animal, sob pena de ser excluído do seu quadro. Paralelo a essa proibição surge um movimento de grupos de ilustres personalidades da sociedade de Paris, favoráveis às ideias de Mesmer. Iniciam a criação das Sociedades Magnéticas, derivadas da Sociedade da Harmonia, que mais tarde se transformam nas “Sociedades Mesmeristas” e se espalham pela Europa com objetivo de promover tratamento das enfermidades.

Mesmer foi oficialmente desacreditado pela ciência, vilipendiado pela classe médica e perseguido pela Igreja que considerou o mesmerismo como um modismo diabólico. Sofrendo grande pressão, abandonou Paris no ano de 1794, tendo passado em Frauenfeld na Suíça, depois Itália e Alemanha. Enfrentando mais um processo promovido pela Academia de Ciência de Berlim, Mesmer foi intimado a prestar esclarecimentos sobre sua teoria e prática, muito pressionado, fugiu para Inglaterra onde viveu por pouco tempo com nome suposto e finalmente, volta para Iznang na Áustria onde morreu aos 81 anos de idade, em completo esquecimento, na cidade de Weiler, em 05 de março de 1815.

Em sua passagem pela Alemanha concluiu a redação do seu livro mais completo Systemder Wechselwirkungen: Theorie und Anwendung des Thierischen Magnetismus als die allgemeine Heilkunde zur Erhaltung des Menschen (Sistema de ação e reação: Teoria e prática do magnetismo animal como meio geral de cura e manutenção da integridade humana) publicado em 1814, detalhando o entendimento teórico e as práticas que desenvolvera durante sua vida, mas a crítica da época considerou o conteúdo como sem crédito.

Na fase final de suas pesquisas, sem abandonar as ideias iniciais, Mesmer acrescentou outras, às quais se aproximam muito das explicações modernas sobre a hipnoterapia. Em suas últimas conclusões relacionava os sintomas dos pacientes às violentas emoções por eles vivenciadas, acreditando que sua técnica era uma forma de superação ou cura dos sofrimentos consequentes da própria história de vida de cada um.

É incontestável que um ritual, não importa qual seja a justificativa, se religioso, místico ou mágico, quanto mais solene mais eficaz será para produzir o transe. Mesmer, sem conhecer essa relação, usou como processo de indução o ritual dos passes e da tina, associando à teoria do magnetismo animal, por isso sua prática também é conhecida como “Escola Ritualista”. Para ele, o transe e seus efeitos eram produzidos por uma força emanada por via astral que, agindo através da pessoa magnetizadora, era capaz de aliviar ou eliminar sofrimentos humanos. Mesmo sendo a maior parte das suas conclusões equivocadas, a partir de suas ideias foi possível uma série de descobertas que deram origem a novos conceitos.

Entre 1790 e 1820 a teoria do magnetismo animal foi relegado à categoria de “acontecimento sem importância”, mas o mesmerismo continuou ativo depois da morte de seu fundador. Decorridos mais de dois séculos muitos autores escreveram sobre o assunto, a favor ou contra, e novas interpretações aconteceram. Em 1831 membros das Sociedades Magnéticas elaboraram um minucioso relatório e o encaminharam à Faculdade de Medicina de Paris solicitando a reabertura do processo que condenara o mesmerismo, obtendo a revisão do julgamento. A comissão de revisão finaliza com a redação de uma nova sentença que considerava o magnetismo como agente de fenômenos fisiológicos e como elemento terapêutico. Por isso era favorável que seu estudo deveria entrar no quadro do ensino da medicina e fosse empregado por médicos ou, sob sua orientação, por especialistas comprovados. Em 1837, porém, a comissão retrata-se da decisão anterior negando a existência dos fluidos, principal argumento do mesmerismo e, por consequência, anula qualquer referência positiva ao uso do magnetismo pela classe médica.

O mesmerismo, embora desacreditado pela academia, serviu de base para várias ideias e sua importância para o desenvolvimento de algumas crenças é incontestável; a hipótese da influência dos Astros nas vidas das pessoas tem início no pensamento mítico e foi absorvido pela filosofia, para muita gente é válida até hoje e, acreditando nisso, muitos ainda recorrem a consultas astrológicas e a mapas astrais para obter respostas sobre a vida, sorte e saúde.

Na década de 1880 as conclusões de Mesmer incentivaram os estudos de um neurologista francês, o famoso Charcot, que associou a terapêutica do seu antecessor ao estudo da histeria e lhe deu novo impulso. Tudo isso contribuiu para Freud, no início do século XX, apontar sua versão para o significado terapêutico das práticas mesmeristas. Na atualidade, novas hipóteses envolvendo em maior ou menor dose, a filosofia, a religião ou a ciência, aparecem inovando e discutindo o tema.

É certo que a teoria do magnetismo persiste através dos séculos, desafiando o conhecimento científico. A crença de Mesmer na força que podia ser acumulada na água, nos cristais e nos espelhos ainda encanta muita gente que também acredita que a força gravitacional da terra atua sobre os seres vivos, provocando doenças e curas. Na linguagem moderna do hipnotismo, o mesmerismo é também reconhecido como a Escola Magnética, Mesmerista ou Ritualista e ainda é muito seguida. Sua prática ligeiramente adaptada continua acontecendo e é objeto de estudos e discussões acirradas.

No sentido religioso a influência do mesmerismo é evidente, os passes magnéticos e recipientes com água das práticas mesmeristas foram mais tarde utilizados como elementos facilitadores da cooperação entre o espírito e o médium. Assim como Mesmer fazia quando invocava os fluidos astrais, frequentemente os dirigentes de rituais religiosos também invocam ou recorrem a um poder sobrenatural do qual se dizem condutores ou instrumentos (Barbel, 1998). [9]. Também transes que acontecem em alguns cultos, principalmente realizados em Centros ou Igrejas, apresentam a mesma sintomatologia dos induzidos por Mesmer e seus seguidores; crises nervosas, convulsões, prantos, gargalhadas, desmaios e contraturas muscular acentuada. Em todos os casos, independente da explicação e da época, o objetivo sempre foi a busca da cura para algum tipo de mal. Mas, parece desnecessário em pleno século XXI recorrer as ideias mesmerista como justificativa terapêutica ou dessa técnica se valer para justificar ou produzir efeitos hipnóticos.

REFERENCIAS:

[1]Zweig, S. A Cura pelo Espírito. RJ, Editora Guanabara, 1932

[2]Mesmer, F. A. Los     fundamentos del magnetismo animal. Aforismo de Mesmery comentarios del Dr. Caullet de Veaumoreu (Trad. para o espanhol e prólogo de Edmundo Gonzáles Blanco). B. Aires, Kier, 1954.

[3]Braga, M., Guerra, A. e Reis, J. C. Breve História a Ciência Moderna: a belle-époque da ciência (séc. XIX). RJ, Editora Jorge Zahar, 2008.

[4]Medeiros e Albuquerque. Hipnotismo. 6ª ed., RJ, Editora Conquista, 1956. Este livro foi prefaciado pelos psiquiatras: Miguel Couto, Juliano Moreira e Franco da Rocha. Medeiros foi membro da Academia Brasileira de Letras; da Academia de Ciências de Lisboa e da Societé de psychologie de Paris. (N. do A.).

[5]Deuleze, J. P. F. Historie critique du magnestisme animal. vol. IV, Paris, Hipolyte Bailliére, (1819) 1956.

[6]Crabtree, A. Animal Magnetism, Early Hypnotism, and Psychical Research, 1766–1925: An Annotated Bibliography. N.York, originally published by Kraus Internationalpublications, 1988.

[7]Chertok, L. e Stengers, I. O Coração e a Razão: a hipnose de Lavoisier a Lacan. RJ, Editora Jorge Zahar, 1990.

[8]Jussieu, L. de. Rapport de l’um des commissaires charges par le roi de l’examen du Magnétisme animal. Paris, Harmattan, (1784) 2004

[9]Barbel, J. O livro dos fluidos. SP, Editora Farol das Três Colinas, 1998.

Notas:

  1. a) O Texto deste Artigo foi extraído do Livro CARREIRO, A. A.  Hipnose: Mítica, Filosófica e Científica. Editora JM, 2014 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.


Author: Carreiro
Professor Antonio Carreiro é mestre e doutor em ciências formado pela Universidade Federal da Bahia, estudou Psicanálise e Terapêutica da Hipnose. Em suas constantes viagens pelo mundo especializou-se na hipnoterapia, revelando uma nova maneira de ver a Hipnose, reconhecer, entender e controlar forças inconscientes para operar em melhorias na qualidade da vida humana. Com mais de 50 anos atuando na área do hipnotismo e na docência acadêmica Antonio Carreiro é personagem consagrada, seus livros, mais de 100 mil exemplares vendidos, são apresentados em vários idiomas. Titulação e experiência no Magistério Internacional comprovada.

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