Fascinação não produz Hipnose

Antonio A. Carreiro, Dr. Sc.
A técnica da fascinação com pretensões hipnóticas não convenceu seu próprio criador, James Braid (1795-1860). Recursos como olhar fixo em um pendulo, fascinar o olhar do hipnotizador ou cansar a visão contemplando um objeto, foram totalmente descartados depois que Braid observou que podia hipnotizar uma pessoa cega ou em ambiente totalmente escuro. Embora tenha sido importante sua contribuição no sentido da evolução da compreensão e das técnicas para hipnotizar a fascinação é um fracasso, cria serias resistências, principalmente quando se trata de fascinar o próprio olho do hipnotizador, isso pode despertar sentimento de subordinação e constrangimento no sujeito a ser hipnotizado que, via de regra, aborta o processo de indução.
James Braid médico cirurgião escocês, nasceu em Rylaw House, em Fifeshire, depois de formado trabalhou na Escócia durante um curto período de tempo, mudou-se para Manchester, Inglaterra, onde viveu até sua morte. Embora equivocada, a teoria desenvolvida por Braid foi tão utilizada que a técnica da fascinação passou a ser chamada de Brandismo e, com ele, também surgiu o termo “Hipnose” iniciado também o conceito de “Escola da fascinação”.
Por volta de 1840, Braid marcou o início de uma nova fase quando o magnetismo animal passou a ser conhecido como hipnose e o termo mesmerismo como hipnotismo, iniciando outra linha de pesquisas e controvérsias, mas sem que os fatos fossem negados ou houvesse dúvidas da respeitabilidade e do valor dos seus estudos. Com o propósito de desmascarar o que acreditava ser uma charlatanice, em 13 de novembro de 1841, Braid foi assistir em Londres uma demonstração do famoso Charles Lafontaine, um magnetizador suíço, discípulo do Marquês de Puységur, que na ocasião se exibia em sensacionais espetáculos públicos na Inglaterra.
Na sessão comandada por Lafontaine, uma jovem foi induzida ao transe profundo quando o magnetizador lhe fixando o olhar e segurando-lhes os polegares, a fez cair, Braid e outros colegas médicos cercaram a paciente na intenção de verificar uma possível fraude. Um dos presentes, o Doutor Wilson, oftalmologista, lembrou-se de examinar as pupilas levantando as pálpebras da jovem, encontrando-as fortemente dilatadas. Às escondidas, Braid espetou um alfinete na magnetizada e não houve nenhuma reação, nenhum gesto; Braid saiu de lá impressionado. Ele não acreditava nos fluidos astrais nem em forças estranhas e sobrenaturais que constituíam a maioria das explicações dos magnetizadores.
Na primeira vez que Braid assistiu à demonstração de Lafontaine não ficou convencido, no entanto, sua curiosidade fez com que uma semana depois assistisse uma segunda demonstração e então aceitou o fato, mas não a explicação. Estava Braid diante de um caso e em busca de uma resposta que não fosse a do magnetismo animal, por considerar uma afronta à dignidade científica da época. Era a velha prevenção contra tudo o que é invisível, tudo que não é concreto e palpável. Prevenção essa que, de certo modo, ainda persiste na época atual com o domínio da ciência positivista.
Tendo observado que Lafontaine olhava fixamente nos olhos da hipnotizada, passou a acreditar que a fascinação ocular era responsável pela indução, Braid concluiu que a causa física para o efeito que assistira era o cansaço visual. Experimentou reproduzir em casa mandando que sua esposa olhasse para o ornato da tampa de um açucareiro de porcelana e que o cunhado e um criado fixassem a visão olhando firmemente o gargalo de um vaso ornamental. Os três entraram em um quadro semelhante ao que presenciara com a demonstração de Lafontaine.
Seguindo o pensamento de Abade Farias, Braid sabia que o fato que pretendia desencadear não dependia de poderes do magnetizador, nem de influências astrais, minerais ou sobrenaturais, era algo físico, mecânico, de ordem fisiológica e, passa a acreditar que o transe podia ser induzido através do cansaço visual. Baseado em suas hipóteses inventa equipamentos como bolas brilhantes, espelhos giratórios e outros objetos que prendessem a atenção do paciente olhando fixamente, como se fascinado. Vez por outra, para a fixação do olhar usava o seu relógio de bolso, daí a ideia do relógio que balança ante os olhos do hipnotizado, mandava ainda olharem fixamente para a chama de uma vela acesa. O processo da indução hipnótica pelo cansaço visual passou a fazer escola.
No começo de suas experiências Braid colava uma rolha de garrafa na testa do paciente e fazia com que ele a olhasse atentamente; a obrigação de conservar constantemente os olhos dirigidos sobre um objeto tão próximo convulsionava a vista e fatigava e abandonava a experiência antes do fim e, assim, foi necessário modificar o processo. Na nova versão foi adotado para que o paciente fixasse um objeto brilhante, que segurava entre o dedo polegar e o médio da mão esquerda, numa distância de vinte e cinco a quarenta e cinco centímetros dos olhos, em posição acima da testa.
Braid, preocupado em estabelecer as causas físicas dos fenômenos psíquicos, fica também convencido da existência de pontos na cabeça dos pacientes os quais chamou de termomagnético.
Acreditava que uma leve pressão nesses pontos provocava a manifestação de sentimentos específicos. Fricções suaves nos lados do rosto despertariam sentimentos como autoestima, benevolência, fraternidade e caridade. Os pontos localizados no alto da cabeça, na nuca e no pescoço, provocavam sentimentos de carinho, afetividade e proteção, entre outros. No tórax, na altura do peito, segurança e confiança. No abdome, espertaria relaxamento e tranquilidade. Sentimentos estes que ele denominava de idealidades. Antes de Braid, esses pontos também são referidos nos aforismos de Mesmer como sendo aqueles que promovem curas através de magnetizações com a imposição das mãos, “passes”, fricções e insuflações (sopros). Quarenta anos depois essas ideias vão ser aproveitadas e ampliadas por Jean-Martin Charcot.
No início de suas observações Braid procurou demonstrar que a hipnose se assemelha a um estado de sono e que podia ser induzido por pela fadiga do nervo ocular. Continuou o procedimento com seus pacientes, fazendo com que estes olhassem para uma luz ou objetos brilhantes. Essa técnica tornou-se clássica, sendo muito usada na segunda metade do século XIX até o início do século XX, com o nome de procedimento de Braid. Embora negada pelo próprio Braid e substituída por outras técnicas mais eficientes e coerentes. Porém, até hoje, livros e ensinamentos populares sobre hipnotismo insistem em sua manutenção, usando o deslumbramento de pontos e objetos ou simplesmente a constrangedora forma de fascinar o olhar incisivo do hipnotizador.
De bom, certo ou errado, Braid baseando a hipnose num princípio onírico, deu-nos a palavra hipnotismo, derivada do vocábulo grego hypnos, que significa deus do sono. Todavia, o sono hipnótico não se confundia com o sono normal e, associando isso aos conceitos neurofisiológicos que aprendera na medicina, passou a descrever como sendo um nervous sleep, um sono nervoso provocado (Braid, 1960). [1]
Já quase no fim de sua carreira, Braid descartou o método do cansaço visual pela fascinação, pois descobriu que podia hipnotizar pessoas cegas ou em recintos totalmente obscurecidos e, passou a dar maior importância à sugestão verbal e aos toques físicos no corpo do paciente. Não tardou a descobrir que também o sono não era necessário para produzir a hipnose. Não se convencendo de suas ideias iniciais negou, portanto, sua própria hipótese, a fascinação como técnica de produzir hipnose foi por ele abandonada. Curioso é que ainda tem quem ponha em prática mesmo sendo negada pelo próprio Braid.
Quando Braid se convenceu de que hipnose não era sono, tentou também mudar a designação de hipnose para monoideísmo, termo que mais adequadamente descreve o fenômeno como sendo um pensamento único. No entanto, a palavra hipnotismo já estava muito divulgada e se havia firmado de tal forma no uso popular que, mesmo baseada em equivoco, é o nome que vigora até hoje.
Depois de muita observação e experiências, Braid solicitou da Bristih Association Medical Section a inclusão de seu nome para uma comunicação. Recusaram-no, pois havia outro artigo muito mais importante com o seguinte título, “Como diferençar as aranhas novas das velhas pelo exame dos respectivos palpos”. Isto não impediu que Braid divulgasse sua teoria sobre hipnose e, em 1843, publicou um livro no qual expõe seu método, mas, a publicação de Braid encontra melhor aceitação na França e na Alemanha do que na sua terra natal. Em 1874, o Dicionário de Medicina aceita publicar seus conceitos que são traduzidos em diversos países. Após Braid, antigas denominações como magnetismo, sono magnético, mesmerismo e sonambulismo deram lugar ao termo hipnotismo.
Embora equivocado, a técnica e a explicação de Braid para o hipnotismo contribuiu para afastar a atmosfera mágica e mística do mesmerismo, porém muito antes dele, Abade Faria tinha ideias modernas e corretas, explicando a hipnose como sendo produzida por sugestão. E antes do Abade, um jovem médico de Paris que praticava mesmerismo, Alexander Bertrand (1795-1831) já apontava a hipnose como sendo resultado de sugestão aplicada e justificava como agente terapêutico, por isso, sofreu também pressões da classe médica.
Em 1823, Bertrand publicou o livro Traité du Somnambulisme e, três anos mais tarde, lançou um segundo, Du Magnétisme Animal em France, afirmando o papel importante da sugestão nos fenômenos atribuídos ao magnetismo animal e estabelecia uma conexão entre o sono magnético, o transe coletivo, o sonambulismo e seus efeitos, chegando à conclusão de que as curas e demais sintomas, antes atribuídos ao magnetismo animal, não passavam de meras sugestões do magnetizador agindo sobre a imaginação de um paciente, cuja sugestionabilidade foi aumentada pelo processo de indução.
A história considera Bertrand e o Abade Faria como sendo o ponto de transição entre o magnetismo e o hipnotismo. Bertrand antecipou-se ao Abade Faria e a Braid, foi o primeiro a afirmar francamente que o sonambulismo artificial (nome dado na época para hipnose) podia explicar-se simplesmente à base da imaginação. Dizia “o hipnotizado dorme simplesmente porque pensa em dormir e acorda porque pensa em acordar”. A publicação do Abade Faria, do general Noizet, na França, e a de Braid, na Inglaterra, só contribuíram com uma formulação mais clara destes conceitos, desenvolvendo esta interpretação psicológica em forma mais precisa. De concreto, os três abriram caminho para a Escola Verbal inaugurada por August Liébaut que substitui definitivamente a ideia da fascinação pela verbalização da sugestão como procedimento hipnótico (JANET, 1980). [2]
REFERENCIAS:
[1]Braid, J. Neuro Hipnologia. B. Aires, Poblet, (1843) 1960.
[2]Janet, P. La médecine psychologique. Paris, Societe Pierre Janet, (1923)1980.
NOTAS:
a)O Texto deste Artigo foi extraído do Livro CARREIRO, A. A.  Hipnose: Mítica, Filosófica e Científica. Editora JM, 2014 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.
b)Antonio Carreiro é Doutor em Ciências, Mestre e Bacharel formado pela Universidade Federal da Bahia.


Author: Carreiro
Professor Antonio Carreiro é mestre e doutor em ciências formado pela Universidade Federal da Bahia, estudou Psicanálise e Terapêutica da Hipnose. Em suas constantes viagens pelo mundo especializou-se na hipnoterapia, revelando uma nova maneira de ver a Hipnose, reconhecer, entender e controlar forças inconscientes para operar em melhorias na qualidade da vida humana. Com mais de 50 anos atuando na área do hipnotismo e na docência acadêmica Antonio Carreiro é personagem consagrada, seus livros, mais de 100 mil exemplares vendidos, são apresentados em vários idiomas. Titulação e experiência no Magistério Internacional comprovada.

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