Hipnose contra vontade

Antonio Carreiro, Dr. Sc.

A força da sugestão é uma condição social e cotidiana, isso justifica o elevado investimento em propaganda, anúncios de produtos e serviços que ocupam a maior parte de quase todos os jornais, revistas, rádio e televisão, além dos dispendiosos patrocínios de programas. As pessoas são passíveis de sugestão o tempo todo, mas se a sugestão não for boa deve ser rebatida de imediato. A mente consciente possui o que se denomina de “senso crítico”, que é um filtro para que se possa ou não aceitar as variadas sugestões diárias. Quando este senso crítico é relaxado, se perde o poder de julgar e discernir.

Não é só na mídia que o poder da sugestão se faz presente, ocorre também em contatos pessoais diretos. Todos são inclinados ao comportamento imitativo, como exemplo quando alguém começa a tossir ou bocejar, em meio a uma multidão, não demora muito e várias pessoas sem motivo orgânico que justifique, também compulsivamente vão tossir ou bocejar. Isso é resultado da sugestão, uma força que pode desencadear irresistíveis compulsões hipnóticas.

Quando não se está crítico para sugestões externas, estas seguem diretamente para o inconsciente que literalmente aceita. Neste caso, vê-se ou sente-se o que não existe e acredita-se no absurdo, até que o senso crítico volte a atuar, ou seja, até que se tome consciência da realidade. Isto às vezes demora muito porque o inconsciente, através de uma realimentação constante, poderá estar sempre convencendo de forma enganosa a consciência. Se o senso crítico estiver em pleno funcionamento, isto não acontecerá.

A hipnose contra a vontade é uma questão sutil, implica em saber se a vontade declarada é sincera. Geralmente se verifica uma falta de unidade de propósitos, ao mesmo tempo em que a pessoa quer ser sugestionada, não quer e vice-versa. Enquanto a vontade consciente se opõe, a vontade inconsciente não se opõe ou vice-versa. O que vai determinar o êxito da sugestão é a vontade inconsciente.

Quando as pessoas enfrentam um hipnotista ou um hipnotizador com propósitos de desafios, chegando a ponto de apostar que não será sugestionada, geralmente são. Trata-se de indivíduos no fundo desejosos de passar pela experiência e sua atitude desafiante não passa, geralmente, de um reflexo da convicção íntima de sua suscetibilidade. É, muitas vezes, um expediente provocativo de um masoquismo disfarçado.

A sugestão pode colher a pessoa de surpresa, não lhe dando tempo para usar a própria vontade. Pode ser tão sutil que as pessoas envolvidas não se dão conta do processo e, neste caso, quando começam a perceber-se da situação já estão agindo por força da sugestão. Submetido à influência de sugestão externa, muitos declaram que não queriam, mas de maneira inesperada agiram contra a sua vontade. Isso principalmente acontece quando o elemento de convicção, apresentado na sugestão, é suficientemente forte para inibir o crítico, refletir sobre o que lhe é apresentado, sobre seu consentimento ou consequência disso.

Para evitar seus efeitos, uma sugestão negativa deve ser criticamente repelida na primeira oportunidade em que for apresentada. Sendo permitida uma segunda oportunidade, o sujeito voltará a insistir no seu firme propósito e a tendência é, a cada vez que reaparece, ser mais convincente. Quem dá a segunda oportunidade está, por qualquer motivo que lhe interesse, consciente ou inconscientemente querendo acreditar. Assim acontece com o vendedor que insiste na venda, se não for rápido e energicamente repelido, poderá convencer alguém a comprar, mesmo sendo o objeto da venda de má qualidade e de alto custo. São várias as possibilidades de induções de sugestões e muitas passam despercebidas no cotidiano da vida das pessoas. Por isso, é preciso estar atento o tempo todo para não aceitar crenças ou comportamentos indesejados.

Alguns sujeitos são hipnotizadores, são insistentes em seus propósitos e se não repelidos de imediato, podem induzir outros a agirem contra a vontade. Geralmente, por mais paradoxal que possa parecer, isto se aplica ao tipo que utiliza argumentação sem procedência, sem sentido, que insiste em manter conversa vazia sem nenhum resultado prático. Podem se revelar mentirosos, coitadinhos, sonhadores ou falsos protetores. Mesmo assim, com todas essas “qualidades”, convencem pela insistência, embora depois de revelarem-se inteiramente suas ideias possam ser rejeitadas.

Hipnotizadores não são Hipnotistas

Assim como muita gente pode ser hipnoticamente sugestionada sem saber, quem sugestiona também pode não saber que utiliza uma técnica hipnótica ou sequer sabe o que é hipnose. É fato que determinados indivíduos são hipnotizadores, hipnotizam mesmo sem conhecimento técnico de hipnose. Agem por intuição ou instinto e, em contato diário, tanto podem sugestionar para o bem como para o mal, produzindo efeitos hipnóticos que são impactados na mente de pessoas mais suscetíveis.

O hipnotizador, diferentemente do hipnotista, não chega a hipnotizar completamente, sua técnica tem por base a repetição e a monotonia, geralmente utilizam discursos prolixos, mas, que repetidos, confirmam a intenção de induzir determinada ideia. A pessoa induzida entra em um estado mental chamado de “hipnóideo” que minimiza a ação da consciência e do raciocínio. A indução produz a tendência de aceitar novas ideias que lhe são apresentadas, se uma é aceita, outras mais difíceis também serão e, isso, pode iniciar uma sucessão ascendente de aceitações que, a longo prazo, altera o poder de crítica e a noção de realidade aniquilando gradativamente a autonomia de pensamento ou as possibilidades de contestações. Quanto mais for reforçada a aceitação, mais difícil será quebrar a dependência desenvolvida em relação ao indutor.

Os hipnotizadores para induzirem suas ideias usam sugestões negativas que são bem mais rapidamente aceitas do que as positivas, este tipo de sugestão não desperta a “lei do efeito contrário” na mente de suas vítimas. Isto porque, para muita gente, é mais fácil contestar boas sugestões do que sugestões negativas. Dependendo do tipo de vida que leva, às vezes é mais fácil visualizar uma situação ruim do que boa.

A sugestão negativa é bem mais aceita porque mexem com sentimentos fortes, como afetividade, segurança e confiança. Assim, se durante a vida alguém diz repetidas vezes que “você só consegue fazer bobagens” e a pessoa que ouve aceita estas ideias, alimentando com elas o seu inconsciente, isto resultará em um terrível complexo de inferioridade. A cura ou libertação depende de que essa sugestão seja novamente processada, o inconsciente pode ser alcançando e convencido corretamente. Isto pode ser entendido como desipnotizar[1] ou hipnotizar para retirar sugestões negativas instaladas no inconsciente.

Conhecer o mecanismo sutil da sugestão que se processa no cotidiano e, principalmente, conhecer o hipnotizador que gera e aplica sugestões negativas é um alerta, uma forma de defesa para prevenir e evitar sua influência. Às vezes não se pode evitar a sua presença, porém é preciso ficar sempre alerta para evitar suas ações. Alguns hipnotizadores possuem perfis de comportamentos bem definidos que revelam seus métodos de indução, pode ser observado pelo menos quatro tipos: o mentiroso, o coitadinho, o sonhador e o protetor.

O mentiroso é o tipo mais comum de hipnotizador, vive entre a realidade e a fantasia. É um verdadeiro ator e, para não cair em contradições, geralmente toma por base fatos que aconteceram em sua vida engendrando sobre eles uma série de ideias falsas e, quando quer sugestionar alguém, apresenta a versão fantasiosa dos fatos como se fosse verdade. De tanto mentir sobre si mesmo acaba se convencendo de suas elucubrações e, uma vez convencido, será suficientemente convincente.

Por incrível que pareça, algumas pessoas diante do mentiroso perdem o senso crítico e aceitam como verdade suas repetidas mentiras. Quando se dão conta da realidade, às vezes nem se dão, já estão envolvidas nas mais absurdas odisseias. Para evitar sua influência, aos primeiros sinais de mentiras, por mais constrangedor que possa ser, deve o mentiroso ser desmascarado imediatamente, demonstrando-se como e porque suas histórias são falsas.

O mentiroso sente orgulho em enganar, por isso fornece pistas para suas mentiras serem descobertas, ao mesmo tempo em que também servem para avaliar a capacidade de iludir a vítima e preparar novas investidas. Engana qualquer pessoa sem esboçar remorso, mesmo aquela que lhe faz bem e lhe é sincera, mas desconfia de tudo e de todos porque, ironicamente, seu maior temor é ser enganado.

O coitadinho é o poliqueixoso, se caracteriza pela lamúria de vida e mesmo sem motivo plausível revela-se como se fosse uma pessoa com dificuldades insuperáveis, frágil, chorão, perseguido pela família, mal compreendido ou amado, diz sempre ser severamente injustiçado por tudo e por todos. Geralmente revela-se como religioso e afirma constantemente que só Deus o ajudaria na solução dos seus problemas.

Quando o coitadinho quer sugestionar alguém, fica diante da vítima demonstrando passividade e indecisões de como agir sobre fatos ou fantasias relacionados à sua vida, seu objetivo consciente ou inconsciente é o de provocar sentimento de proteção e, disso, tirar vantagens. Seu discurso recorrente tem por base frases do tipo: Ninguém me liga, ninguém me quer… Coitado de mim, meus sonhos são impossíveis… Não sei se digo… Choro… Fico ou saio… Só Deus pode me ajudar… Com isso, atingem a sensibilidade afetiva e o sentimento de fraternidade latente nos indivíduos e, assim, desviam sua atenção da realidade para concentrar-se apenas na obstinada e hipnótica vontade de ajudar o coitadinho. A vítima, inconscientemente, deixa-se ser usada até que ocorra o restabelecimento do senso crítico e, só nesta oportunidade, é que poderá “acordar”, arrependido, sem compreender como pôde ser usado de forma tão injustificável. Em alguns casos, o senso crítico pode demorar dias, meses e até anos para atuar.

O tipo sonhador é o que menos lógica requer da pessoa com quem se relaciona. Consegue aniquilar o senso crítico de quem dele se aproxima, através do discurso de “vida perfeita”, demostra ser sensível, espiritualizado e em harmonia com a natureza, diz sempre viver em um mundo fantástico e sem problema. Mesmo que sua vida real seja uma lástima, tem sempre um discurso maravilhoso para apresentar, seu abre-alas é defender utopias, revela-se como amante da natureza e seus elementos; o mar, o sol, o luar, a terra, as matas e os animais são frequentemente evocados em suas argumentações como símbolos de pureza e inocência. Com esses argumentos é difícil resistir, então a indução hipnótica se perfaz rapidamente e o sonhador tira da realidade as pessoas que embarcam na sua “viagem” e com suas fantasias, tiram vantagens de suas vítimas.

Entre todos os hipnotizadores negativos o tipo protetor é o mais pernicioso, pode também não excluir ou usar como estratégia alternativa os perfis de mentiroso, sonhador e coitadinho, dependendo do momento e das reações que encontra em suas investidas. O objetivo do protetor é deteriorar a mente das pessoas com processos autoritários e repetitivos, anulando a ação da consciência e o raciocínio, implementando e enchendo sua vítima de medos e culpas. Quanto maior for o grau de submissão em relação as suas ideias e afirmações sua ação é mais rapidamente atingida.

Normalmente o protetor aproxima-se com elogios, mas logo que ganha confiança inicia de forma crescente e incessante um bombardeio de sugestões negativas até aniquilar com a autoestima de pessoas que permitem, por algum motivo, sua aproximação. Nesta última fase, com habilidade no recuo e no avanço, é extremamente censurador, falsamente afirma que suas vítimas não prestam, não têm sorte, sucesso, vivem mal, pensam mal, agem sempre de forma errada, não conseguem se relacionar bem com ninguém, além de possuir defeitos estéticos, morais, mentais e daí para pior.

Além de reduzir a autoestima, o protetor pode até chegar à agressão física, intercalando episódios sempre recorrentes de menor ou maior intensidade. Mas, por paradoxo, ele vai gradativamente sendo entendido como alguém indispensável pelo fato de afirmar incessantemente que é o único capaz de entender, consolar, suportar e até amar por reconhecer pequenas virtudes de suas vítimas. O protetor é um hipnotizador que manipula e deteriora a mente das pessoas com processos autoritários e repetitivos que vão gradativamente reduzindo a vítima à sua dependência física e emocional. A condição é que quanto mais deprime, mais fortalece na vítima a ideia da necessidade de proteção. Sua bandeira é fingir ajudar para melhor controlar.

O sintoma de dependência e subordinação apresentados pela vítima do protetor é consequência de um estresse físico e emocional extremo que cresce ao longo da relação, desenvolvendo o complexo e dúbio comportamento de afetividade e ódio simultâneos. Não pode haver nada de mais abominável por se tratar da supressão da individualidade, da capacidade de discernimento e da razão produzida por simples, porém bem articulada, sequência de sugestões negativas, induzidas através de falsa afetividade, com o objetivo de alterar gradativamente o caráter, a personalidade e o comportamento das pessoas.

Às vezes, quando sente a menor possibilidade de perder espaço, o protetor agrada a vítima, promete o impossível e faz planos inatingíveis, argumentando com detalhes que só um ator seria capaz de representar. Para recuperar e manter o controle o protetor pode recorrer, apelando com nuança entre ser “bonzinho” ou “sofredor”, mostrando-se até dependente, se humilha se for necessário, mas sempre reforçando que é o único capaz de proteger, dar segurança, orientação e atenção. Quando a vítima aceita a “proteção” fica difícil se libertar dos instintos ruins do protetor que promove um verdadeiro caos na vida de quem se sujeita aos seus caprichos; afasta sua presa dos amigos, familiares e até de uma vida social normal, demonstrando ostensivamente sempre que é ele quem domina e controla. Não escondendo as armas que dispõe, vai se impondo como “dono” da vida e do destino de sua vítima. Aos poucos o protetor vai monitorando e conduzindo as pessoas à sua dependência até o absoluto controle, quando usa e abusa dos seus sentimentos e servidão.

Curiosamente as vítimas do protetor, na proporção que o tempo passa, menos esboçam reações contrárias ao controle a que estão sujeitas, é possível até defender seu algoz aceitando suas argumentações como verdadeiras e entendendo suas ações como sempre boas, justas e certas. Isso resulta de um processo de convencimento de longo prazo e para desfazer seus efeitos também depende de muito tempo. A relação da vítima com o protetor transforma-se em uma variante da Síndrome de Estocolmo, que se desenvolve a partir de tentativas para se identificar com o seu opressor ou de conquistar sua simpatia. É uma espécie de relação de dependência moral entre a vítima e seu algoz que dificulta a libertação; a liberdade passa a ser vista como ameaça, porque o refém pode correr o risco de ser magoado e ter sua autoestima mais reduzida ainda, além da expectativa de ser “abandonado”. Assim, leva a vítima uma despersonalização por submissão e aceitação.

O objetivo do protetor é manter o “protegido” preso a ele. Age como se alguém não tivesse capacidade de executar suas tarefas e como se outra pessoa precisasse fazê-las por ela. Isso pode enfraquecer a pessoa que está sendo manipulada e torná-la dependente e sem vontade própria, impedida de fazer escolhas e tomar as decisões sobre sua própria vida. Tal processo é profundamente humilhante, produz sofrimentos dilaceradores e não há razões que consigam justificar como aceitável tal sofrimento. Aos poucos a situação se torna insuportável e pode ocorrer um sentimento “ante protetor”, é quando a vítima começa a rejeitar o opressor que hospeda dentro de si, iniciando o processo de libertação, primeiro na mente, depois na organização da vida e, por fim, na prática diária. É só pela libertação que a vítima resgata a autoestima e refaz sua identidade negada.

Com relação aos hipnotizadores negativos, é importante lembrar que nem sempre o mentiroso acredita em suas mentiras e o coitadinho nem sempre acredita ser tão sofredor como se revela. Também o sonhador quase nunca acredita nos seus próprios sonhos e o protetor, às vezes, não é capaz de proteger nem a si mesmo. Todos eles, no entanto, se fazem acreditar pelas pessoas que verdadeiramente aceitam seus argumentos, isto é, as pessoas são literalmente convencidas por esses tipos de hipnotizadores a acreditarem em situações que eles mesmos geralmente não acreditam.

Quando o hipnotizador inconsciente ou conscientemente consegue reunir “qualidades” que somem o mentiroso, o coitadinho, o sonhador e o protetor suas investidas são terríveis; neste caso, ou se rebate de logo ou será fatalmente induzido por sugestões, porque o rapport será facilmente estabelecido durante a relação e mantido por longo tempo, produzindo efeitos devastadores de submissão, servidão, inferiorização e impotência para resistir ou mudar quando descobre os primeiros indícios de desconforto. Quanto mais o tempo passa, a tendência é aceitar e assumir o papel imposto pelas sugestões do hipnotizador.

O rapport, antes de ser imaginado como um período curto de tempo em que uma pessoa aceita outra sem contestar, pode durar uma vida toda. É conquistado pela forma de olhar, pela fala, pelo gesto, pela concordância de argumentação. Pode se estender até ao uso da linguagem semiótica valendo-se da identificação de sinais, símbolos e signos linguísticos que orientam o relacionamento de uma pessoa com outra. Por exemplo, pessoas apaixonadas estão em constante rapport.

Quanto mais a pessoa se mantém em rapport, que se traduz como a tendência de acreditar independente do que diz os fatos e evidências, maior será a possibilidade de ser sugestionada e viver fantasias. Se as ideias aceitas forem construtivas poderá até viver feliz, se ao contrário, alimentado com e ideias negativas, poderá resultar grandes transtornos emocionais, ilusões e desilusões, principalmente se envolver o afetivo. Uma sociedade de relações turbulentas, egoístas e competitivas, está repleta de oportunistas hipnotizadores negativos que sabem criar e valer de rapport para induzirem suas ideias.

Não restam dúvidas de que a hipnose depende do rapport e pode ser exercida sem o conhecimento do hipnotizável, como também sem o conhecimento do próprio hipnotizador. Algumas pessoas ignoram suas qualidades de hipnotizadores, mas hipnotizam mesmo sem saber como. Entre esses hipnotizadores podem ser encontrados até analfabetos ou desprovidos de respeitabilidade e até marginais à moral social e legal. Weissmann (1958) reforça essa posição descrevendo sua experiência:

Lembro-me de um paciente, um recluso, homem rústico e analfabeto, que acompanhado de ficha antropológica bastante desfavorável, apresentou-se em meu gabinete de psicologia. Na ficha constava que o preso conseguira engenhosamente evadir-se de diversos estabelecimentos penais. Interrogado, o próprio detento confiou-me o segredo de sua técnica fugitiva. Angariava a confiança dos guardas da prisão, convencendo-os de que possuía uma reza secreta capaz de ‘endireitar-lhes’ a vida. Bastava que eles (guardas) compartilhassem de sua fé e participassem com sua presença de uma reza. Na própria cela, o presidiário improvisava o altar, com uma simbologia; velas de cabeça para baixo, objetos estranhos de toda ordem e mais os retratos dos guardas a serem ‘beneficiados’. Estes últimos, dispostos em semicírculo, assentados, recebiam do detento uma colher de água com açúcar, além da recomendação de fecharem os olhos e se concentrarem mentalmente, enquanto ele (detento) orava em voz baixa. Passados poucos minutos, os guardas, assentados, de fuzil em punho, entravam em transe, permitindo assim ao preso subir à janela, serrar a grade e fugir. Quando os policiais acordavam, o fugitivo já estava longe da prisão (WEISSMANN, 1958).

Diz ainda Weissmann (1958) que o preso aplicou nos guardas do presídio um engenhoso método de indução hipnótica, mesmo sem nunca ter ouvido sequer a palavra hipnotismo em sua vida. E, no entanto, sua técnica aplicada no fato narrado foi correta, baseada na atenção concentrada ou desviada, como diria Gindes (1951),[2] na e na expectativa.

Quando Weissmann perguntou ao preso a que ele atribuía os soldados terem dormido assim, profundamente, de fuzil na mão, ele respondeu: “É a minha reza que tem esse poder”. O preso trazia a prece numa pequena bolsa de couro pendurada ao pescoço.

A sugestão acompanha a vida inteira das pessoas e sua repetição por longo tempo pode resultar comportamentos hipnóticos incontestáveis. Ouvir ideias repetidas pode resultar em hábitos e superstições inexplicáveis. Se não for pela compulsão inconsciente, fica difícil explicar o comportamento supersticioso que até os mais céticos possuem.[3] Como se explica o fato de que muitas pessoas não vestem determinado tipo ou cor de roupa, não passam por baixo de escada, acreditam entre outras coisas que gato preto provoca azar ou que pé de coelho provoca sorte. Estas situações, dependendo do nível de crença do supersticioso, até se tornam realidade. Isto só se justifica, porque durante o processo histórico de vida, essas ideias foram alojadas em seu inconsciente e passam a determinar suas ações, mesmo que conscientemente não mais acreditem nelas.

O efeito hipnótico pode ser construído em um indivíduo desde a sua infância, como exemplo uma criança que não se adapta bem nos estudos e o pai ou a mãe ou na escola é repreendido várias vezes, com comentários do tipo “você é incapaz de aprender”. É possível que a criança aceite tais observações, acredite nelas e então se torne incapaz de aprender com facilidade, mesmo sendo inteligente. Mas se ouve de vizinhos, amigos e parentes que ele é uma pessoa boa e agradável e que tem bom futuro, disto resultará o êxito certo. Quando essas ideias são aceitas, alimentam o inconsciente e este realimentará de volta a consciência.

Durante suas vidas, as pessoas entram em hipnose espontânea praticamente centenas de vezes, dependendo da idade algumas ficam em transe vários dias. Tais situações são denominadas de estado hipnóideo e sobre isso diz Griffith Williams (1956):

Sonhar acordado nada mais é do que um estado hipnótico, talvez leve, talvez profundo. Quando nos concentramos bastante em alguma coisa, tal como na leitura de um livro, em um filme ou um programa de televisão ou até mesmo no trabalho, tendemos a entrar em transe (WILLIAMS, 1956).[4]

Estbrooks (1943)[5] vai além e diz que: “é até provável que o estado de hipnose ocorra sempre que experimentamos uma forte emoção, como grande expectativa, medo, raiva ou paixão”. M. LeCron estende o estado de hipnose para as atividades comuns do cotidiano e sobre isso diz:

Quase todos os motoristas lembram-se de situações que estimulam a hipnose – viajando na estrada deserta, relaxados no volante, olhos presos na faixa branca da estrada, o ruído monótono do motor, e de repente percebem que já passaram por uma cidade, mas não se recordam de tê-lo feito. Estiveram em hipnose, experimentaram sintomas de amnésia e depois despertaram por conta própria (LeCRON, 1979).[6]

Quando alguém está aprendendo a dirigir um automóvel, não consegue definir bem o que fazer na sequência dos procedimentos para pôr o veículo em movimento e quanto mais deseja, menos acerta. No entanto, quando se acha capaz de dirigir suas atitudes fluem automaticamente. É capaz de dirigir por longa distância sem se dar conta de como está fazendo isto, seus procedimentos de motorista são realizados inconscientemente, como virar a curva, passar marchas, enfim, fazer tudo muito bem, sem se dar conta de como está fazendo. Todo comportamento realizado mecanicamente é inconsciente.

Na vida cotidiana ocorrem situações que reproduzem os mais engenhosos expedientes da hipnotização, mostrando assim que a hipnose é efetivamente um estado normal e bastante comum. Bernhardt Roger (1978)[7] sintetiza essa questão fazendo-nos algumas perguntas cujas respostas para ele podem representar o fato de ter ocorrido um processo hipnótico:

  1. Se você, em alguma ocasião, se apaixonou, permanecendo cego aos desejos e imposições de outra pessoa a ponto de prejudicar sua propia felicidade e não dar ouvido a mais ninguém – pode dizer que já esteve hipnotizado.
  2. Se você, em alguma ocasião, já experimentou a sensação de estar desligado de tudo enquanto lia um livro, ouvia uma música, assistia a uma peça ou filme – você pode dizer que esteve hipnotizado.
  3. Se você, alguma vez, se encontrou perdido em pensamentos ou se esqueceu por um momento de onde estava ou mesmo não ouviu quando o chamaram pelo nome – pode dizer que já esteve hipnotizado.
  4. Se você, em algum momento, se sentiu como que transportado da realidade, sem a noção exata dos acontecimentos em sua volta – então, você já esteve hipnotizado.

REFERENCIAS:

[1] O ato de desipnotizar é chamado de anipnotizar, do grego an hypnotizó. Significa acordar, sair do sono ou anular o seu efeito (N. do A.).

[2] Gindes, C. B. New concepts of hypnossis: an Adjunct to psychotherapy and medicine. London, George Allen and Unwin Ltd. 1951.

[3] Na psicanálise, compulsão inconsciente é o conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas que escapam ao âmbito da consciência e não podem ser lembrados por esforço da vontade consciente (N. do A.).

[4] Williams, G. Experimental Hypnosis. N. York, Editora Macmillan, 1956.

[5] Estbrooks, G. H. Hipynotism. N. York, Dutton, 1943.

[6] LeCron, L. M. Auto-hipnose. 2ª ed., RJ, Editora Record, 1979.

[7] Roger, B. Autodomínio através da auto-hipnose. RJ, Editora Record, 1978.

NOTAS:
a)O Texto deste Artigo foi extraído do Livro CARREIRO, A. A.  Hipnose & Psicoterapia: Etiologia e Práxis. SP, Editora Fiúza, 1999 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.
b)Antonio Carreiro é Doutor em Ciências, Mestre e Bacharel formado pela Universidade Federal da Bahia.

Registro de propriedade intelectual (original). Material didático extraídos de livros, direitos autorais protegidos, Art. 184 CPB e Lei nº 6.895/80, uso exclusivo de Antonio Carreiro Curso Livre & Treinamento. Constitui crime o plágio ou a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios e para quaisquer outros fins sem autorização prévia do autor. Suspeitando, denuncie.



Author: Carreiro
Professor Antonio Carreiro é mestre e doutor em ciências formado pela Universidade Federal da Bahia, estudou Psicanálise e Terapêutica da Hipnose. Em suas constantes viagens pelo mundo especializou-se na hipnoterapia, revelando uma nova maneira de ver a Hipnose, reconhecer, entender e controlar forças inconscientes para operar em melhorias na qualidade da vida humana. Com mais de 50 anos atuando na área do hipnotismo e na docência acadêmica Antonio Carreiro é personagem consagrada, seus livros, mais de 100 mil exemplares vendidos, são apresentados em vários idiomas. Titulação e experiência no Magistério Internacional comprovada.

Deixe uma resposta